Revoluções frustradas: o antipetismo de esquerda

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Há duas semanas escrevi aqui sobre o antipetismo como resultado de uma transformação histórica do anticomunismo, presente no Brasil desde o século XIX. Porém, nos últimos 40 anos há um fenômeno de ódio ao Partido dos Trabalhadores vindo de correntes políticas que defendem as classes trabalhadoras e populares.

Assim como o anticomunismo nasceu antes da existência de comunistas no Brasil, o antipetismo de esquerda nasceu antes do próprio PT. Veio do ódio entre militantes decorrentes dos rachas no antigo Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura militar, a direção do PCB deliberou por resistir na arena institucional, tanto que, sem registro, boa parte dos seus quadros se filiou ao MDB, o partido da oposição permitida no sistema bipartidário. Alguns grupos deixaram o PCB e buscaram a luta armada, a mobilização de base, gerando  o PCdoB, o PCBR e várias correntes que tentavam se articular na guerrilha, sendo que em alguns casos até concorriam entre si. Continuar lendo

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O anticomunismo e a origem do antipetismo no Brasil

Antes mesmo de existirem comunistas neste lado do Atlântico, havia o anticomunismo. Data de antes das imigrações europeias que trouxeram os operários e lavradores brancos para o Brasil. Hoje ele se mistura em diversas nuances, como o “antibolivarianismo” e a vertente mais forte, que é o antipetismo de direita (o de esquerda é diferente, fica para outra hora).

As oligarquias brasileiras já temiam o trabalhador negro desde que tomou conhecimento da Revolução Haitiana (1791-1804), onde os negros quiseram liberalismo, tal qual o francês, também para a colônia centro-americana. Executaram os escravistas brancos e construíram uma república negra. Foram violentamente reprimidos pela república francesa. Desde aquela época era evidente que uma democracia burguesa num país central depende da espoliação de populações e territórios distantes.

As oligarquias brasilianas tinham um medo da população trabalhadora, mas um medo ainda sem nome. Encontraram em meados do século XIX, quando a Revolução Haitiana já era apenas lembrança. Como “fantasma” que rondava a Europa, tal qual descreveram Marx e Engels no Manifesto, o comunismo é de meados do século XIX, da década de 1840, quando os movimentos proletários europeus se organizavam contra a burguesia do velho mundo. Chegou a uma revolução vencida e reprimida militarmente, com execução de milhares de trabalhadores em todo aquele continente. Continuar lendo

O sonho intenso dos brasileiros cabe neste mundo?

Murilo Leal

Um sonho intenso é o título do mais recente documentário do diretor José Mariani, lançado em 2014. Mariani, que é também professor de Cinema e Documentário da PUC do Rio de Janeiro, já dirigira Cientistas brasileiros, sobre os físicos José Leite Lopes e Cesar Lattes e O longo amanhecer, cinebiografia do economista Celso Furtado.

Um Sonho intenso, com 1h40m de duração, foi apresentado no auditório da EPPEN em 14 de julho de 2014, com a presença do Diretor, e trata da construção, a partir do primeiro governo Vargas, do projeto de desenvolvimento nacional baseado na ampliação do mercado interno, na industrialização e na incorporação das massas trabalhadoras, discutindo seus impasses, contradições e estado atual. Coloca-se, assim, como parte do programa cinematográfico do autor, que podemos vislumbrar por sua afirmação: “Se Glauber Rocha dizia que o cinema não exclui a poesia, eu acrescento: o cinema não exclui a ciência.” De fato, os três documentários de Mariani apresentam e debatem ideias do campo da ciência, mas têm em comum, além disso, o interesse por cientistas comprometidos com um projeto de desenvolvimento nacional.

A trama do filme é composta pelas falas de economistas, sociólogos, jornalistas e historiadores que interpretam a história econômica e social do Brasil a partir de 1930, com visões que se compõem e às vezes se contradizem, dentro de um campo de esquerda e centro-esquerda, como declarou o próprio Mariani ao jornal Visão Oeste, de Osasco. É constituída, ainda, pelas imagens selecionadas e pela montagem, em que se insinua a leitura do próprio Mariani.

O diretor, em suma, colheu depoimentos de Adalberto Cardoso, Carlos Lessa, Celso Amorim, Chico de Oliveira, João Manuel Cardoso de Melo, José Augusto Ribeiro, José Murilo de Carvalho, Lena Lavinas, Luiz Gonzaga Belluzo, Maria da Conceição Tavares e Ricardo Bielchovski; selecionou e organizou trechos desses depoimentos em ordem temática e cronológica, indo da crise de 1929 até o segundo governo Lula, escolheu imagens que tanto ilustram as falas dos depoentes como falam por si mesmas e encomendou uma trilha sonora algo melancólica a Aluisio Didier. O resultado final é um balanço da construção e desconstrução de um projeto de Brasil, nostálgico, por um lado, do sonho que se perdeu, lúcido, ao mesmo tempo, na procura de respostas que expliquem o passado e abram futuros.

Uma possibilidade de resumir as proposições dos intérpretes é a que se segue. A década de 1930 herdou do pós Primeira Guerra o debate cultural do Modernismo, que rompera com a visão da civilização brasileira como caricatura de Portugal e convencera-se de que uma nova cultura estava nascendo e herdou também o complexo cafeeiro, controlado por capitais nacionais. A crise de 1929 liquidou com a dominação das oligarquias do café com leite e abriu espaço para a ascensão de novos gestores do Estado: Vargas e os tenentes. Estes, embora criando salvaguardas para a defesa do café, trouxeram o projeto de reorganização do Estado como fator da industrialização, como lembra Carlos Lessa. A burguesia industrial e as classes médias começaram, então, a pesar mais na estrutura social, permitindo uma industrialização a partir do mercado interno, na visão de Maria da Conceição Tavares. Este projeto, segundo Adalberto Cardoso, começou a “habitar o sonho e a expectativa dos trabalhadores”. O nacional-desenvolvimentismo seria comum aos governos Vargas e JK, na leitura de João Manuel Cardoso de Melo e Carlos Lessa, mas as economistas Maria da Conceição Tavares e Lena Lavinas fazem o contraponto: o 50 anos em 5 (slogan da campanha presidencial de JK) não era um projeto de sociedade, mas de industrialização acelerada, voltada para um mercado de consumo urbano de classe média, mantendo e reproduzindo o subdesenvolvimento rural, junto com o desenvolvimento. “O programa desenvolvimentista brasileiro foi uma modernização conservadora – ponto final, parágrafo!!” proclama, enfaticamente, Tavares. O ciclo se fecha com o golpe de 1964, uma reação dos militares às reformas de base defendidas pelo governo de João Goulart, qualificadas então como ameaça revolucionária à ordem, embora não fossem.

Com Costa e Silva, é retomada uma política desenvolvimentista que propicia o “milagre econômico” – crescimento de 11% ao ano de 1968 a 1973 – “milagre econômico perverso”, nas palavras do economista Ricardo Bielchovsky, já que baseado na concentração de renda. A crise internacional do petróleo, em 1973, ameaça o desenvolvimento e a estabilidade do regime militar, que nele se legitimava e, por isso, no governo Geisel agiganta-se o projeto desenvolvimentista autoritário, capitaneado pelas estatais, gerando a oposição da burguesia industrial. A redemocratização tem que lidar, na economia, com a hiperinflação e não se fala mais em planos de desenvolvimento. O Governo Collor “tira o Brasil da pauta”, segundo Carlos Lessa, movimento que prossegue nos governos FHC. A equipe de economistas de Fernando Henrique conseguiu debelar a inflação com câmbio valorizado, juros altos, privatizações, alinhamento com as diretrizes do “Consenso de Washington” e uma reforma monetária criativa. “O que nós fizemos foi nos curvarmos a esse vagalhão neoliberal”, sentencia José Manuel Cardoso de Melo.

Finalmente, os governos de Lula são vistos como momento de inclusão das classes populares por meio do crédito, do consumo, do aumento do emprego formal. O sociólogo Adalberto Cardoso acrescenta que verificou-se também a retomada de valores do projeto varguista, com a afirmação da “auto-estima do brasileiro” pela reconstrução de uma identidade baseada no trabalho e no emprego protegido. O filme, claro, termina com um debate em aberto, que cabe aos espectadores desenvolver. É uma obra para ser discutida e por isto foi lançada primeiramente em circuito universitário, acompanhada de palestras com o diretor e só depois se apresentou em circuito comercial. Encontramos posições otimistas, como a de Maria da Conceição Tavares, que afirma: “Eu acho que o sonho de Darcy [Ribeiro] está chegando, a gente já está se aproximando da ideia dele de ter um país desenvolvido, democrático, inter-racial”. Também encontramos visões, críticas, como a de Chico de Oliveira: “O negócio deles [dos governantes petistas] é fortalecer o capitalismo brasileiro e, portanto, as grandes empresas (…) Eles são nacionalistas do grande empresariado”. Mas talvez a conclusão mais avançada seja a de Lena Lavinas: “O Brasil é um país muito desigual. O Brasil nunca conseguiu ter um grande movimento social de caráter nacional que conseguisse unir uma plataforma social, que conseguisse levar realmente a um novo compromisso de classe. Mas, sem dúvida, talvez o que nos faltou tenha sido a radicalidade de uma ruptura que tenha levado à necessidade de um compromisso histórico para uma nova sociedade”.

Um sonho intenso se sustenta mais pela força das ideias do que pela força das imagens. Estas, o mais das vezes, ilustram as falas, em muitos momentos com informações visuais importantes, como cenas da população na Praça dos Três Poderes na posse de Jânio Quadros ou dos tanques na rua no golpe de 1964. Com frequência, porém, as imagens não enriquecem as ideias debatidas, abusando de cenas da posse de presidentes da República, em narrativa visual presa a uma visão tradicional da história política e de imagens de manchetes de jornais anunciando os fatos mencionados pelos analistas em suas falas. Em alguns momentos, porém, as imagens adquirem força própria e dialogam com o texto, como na passagem em que o diagnóstico de que o projeto de desenvolvimento foi uma modernização conservadora é acompanhado por uma imagem aérea contrastando a favela de Paraisópolis com os prédios de luxo do Brooklin.

Principalmente, nos chama a atenção o foco no quadro Operários, de Tarsila do Amaral, que abre o filme, apresentado a uma distância que nos permite observá-lo em sua inteireza e é retomado no final do filme, agora com closes nos  rostos de alguns dos operários e operárias. Em seguida, ao fundo dos créditos finais, é exibido trecho de filme registrando a saída de operários da fábrica Belgo Mineira. Mariani parece querer dizer que o projeto de construção de uma nação desenvolvida e democrática só poder ter sucesso se os operários como classe e como indivíduos tiverem um papel decisivo nesta construção. Ou seja, o projeto nacional só terá sucesso se for, também, um projeto de inclusão e de mudança social. É o que aparece na epígrafe de Celso Furtado, a quem o filme é dedicado: “A história nos demonstra que o avanço social dos países que lideram esse processo não foi fruto de uma evolução automática e inercial, mas de pressões políticas da população. É só quando prevalecem forças que lutam pela efetiva melhora das condições de vida da população que o crescimento se transforma em desenvolvimento”. Cabe considerar, porém, que o Brasil do sonho intenso do Hino Nacional foi realizado. Se o Estado nacional edificou-se sobre a desigualdade extrema é porque este era o projeto social das classes que dirigiram esta construção. Priorizar o projeto social dos de baixo pode não ser compatível com o projeto nacional dos de cima. Os rostos dos operários e operárias nunca serão reconhecidos na galeria dos construtores do Estado nacional porque o Brasil não é dos brasileiros. O Brasil dos deserdados talvez não seja o Brasil do Hino oficial, mas o de outro Hino Nacional, o que Drummond publicou no livro Brejo das Almas, em 1934, e que assim se encerra:

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!

Nosso Brasil é no outro mundo, Este não

É o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão

Os brasileiros?

Curso de extensão: Imperialismo, fase superior do capitalismo


lenin

A Revista Amplitudes, do Departamento Multidisciplinar da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (EPPEN/Unifesp), promove entre os dias 3 e 31 de outubro deste ano o curso de extensão “Imperialismo, fase superior do capitalismo – 100 anos da obra. As aulas, sempre às segundas-feiras, das 14h às 18h, serão realizadas no auditório do Campus Osasco: Rua Angélica, 100, Jardim das Flores, piso térreo.

O panfleto, publicado em 1916 por Lênin, é uma reflexão sobre a conjuntura do capitalismo na época em que se desenrolava a “Grande Guerra”, com a construção da hegemonia do capital financeiro nas nações onde algumas décadas antes (EUA, Inglaterra e França) havia hegemonia do capital produtivo. Adicionalmente, a revolução russa acenava seus passos que seriam dados em fevereiro, com a derrubada do czarismo e a ascensão menchevique, e a insurreição bolchevique de outubro de 1917. No livro o autor traz o conceito de imperialismo, o qual permeou diversos movimentos políticos no século que se passou à sua publicação e vem sendo resgatado no debate político internacional após a crise financeira de 2008 e as tentativas de sua superação salvando o capital fictício e produtor de juros.

O curso é GRATUITO e se propõe a analisar esta obra, pertinências e fragilidades, seus desdobramentos e a atualidade das propostas do autor.

FAÇA AQUI SUA INSCRIÇÃO

 

PROGRAMAÇÃO

3/10

O autor e a obra: Lênin, seus escritos e a importância de “Imperialismo, fase superior do capitalismo”

Prof. Dr. Murilo Leal Pereira Neto, Departamento Multidisciplinar

 

10/10

O conceito de imperialismo a partir da obra de Lênin, as adesões e as críticas

Prof. Dr. Antonio Roberto Espinosa, Departamento de Relações Internacionais

 

17/10

Economia política e imperialismo

Prof. Dr. Alberto Handfas, Departamento de Ciências Econômicas

 

24/10

Imperialismo e história das relações internacionais

Prof. Dr. Rodrigo Medina Zagni, Departamento de Relações Internacionais

 

31/10

Contradições e atualidade do pensamento leninista sobre o imperialismo 100 anos depois

Prof. Dr. Fabio Venturini, Departamento Multidisciplinar

Resenha de “Não Verás País Nenhum”

Não Verás País Nenhum, Ignácio de Loyola Brandão. Global Editora, 11a. edição, São Paulo, 1985, 357 páginas. Lançado originalmente em 1981.

capa não veras pais nenhum

Durante os anos da ditadura militar (1964-1985) a literatura brasileira produziu algumas obras muito boas sobre a condição política e social do país. E, de forma surpreendente para alguns, a partir de um ponto de vista não convencional, pela metáfora, pelo fantástico e sobretudo pela ficção científica, também chamada para este caso específico de ficção distopica.

Talvez o livro mais importante e influente tenha sido Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Quando o escreveu, o autor já era reconhecido, tendo publicado obras importantes, inclusive, sobre aspectos da repressão, como o controverso Zero (1974), ainda hoje o seu livro de maior impacto. Também editou com sucesso a primeira versão da revista Planeta, na primeira metade dos anos 1970, quando publicava contos de ficção científica, inclusive de autores brasileiros. Vê-se, portanto, que o autor tem alguma comunicação com o gênero. Sendo assim, Não Verás País Nenhum deve interessar particularmente os leitores tradicionais do gênero.

Desconfio, entretanto, que poucos fãs brasileiros de ficção científica já o tenham lido. É realmente de se lamentar, pois se está diante de um verdadeiro livraço. Foi, inclusive, publicado nos Estados Unidos e países europeus com premiações e críticas elogiosas,[1] o que atesta também o seu caráter universalista, mesmo abordando de forma profunda não só a ditadura, mas a própria ideia do que é ser brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século passado, isto é, urbanizado e em contato com mudanças tecnológicas.

Estamos no início do século XXI em São Paulo. A ditadura militar não terminou e perpetuou seus métodos de governo autoritário e sua repressão política e comportamental à sociedade. Temos como protagonista Souza, um ex-professor de História, que aposentado à força pelo regime, trabalha como um burocrata metódico e entediado. Além da ditadura política em si, o país passa por um desequilíbrio ecológico grave, com racionamento de água, calor intenso, alimentos artificiais e manufaturados, ausência quase total de vida animal e vegetal, nascimento de crianças deformadas e mutantes. Pois a floresta amazônica e as demais foram destruídas, transformadas em gigantescos desertos, o que explica as altas temperaturas durante o ano inteiro.

Situações próximas do surrealismo ilustram o contexto, como os banheiros públicos que reciclam a urina – com o requinte de selecionar as urinas mais saudáveis – para transformá-la em água, usada para beber e outros fins pelas pessoas. Os bolsões de calor, que provocam a queimadura até a morte, no início no Nordeste, mas no fim também em São Paulo, levando à construção de uma obra faraônica e inútil, uma quilométrica Grande Marquise para abrigar do calor os miseráveis e os sem-teto.

Desta forma tanto quanto uma distopia política, Não Verás País Nenhum também é uma distopia ecológica. Em que não apenas um Estado dispõe de forma autoritária e truculenta sobre os recursos da natureza, como a própria sociedade, além de não ter controle sobre as ações do governo, parece ter pouco apreço pelo meio-ambiente em si – destrói um museu sobre a natureza e uma reserva ecológica clandestina, por exemplo –, embora seja quem realmente sofra suas consequências danosas, já que os agentes estatais se protegem por meio de cúpulas climatizadas e refrigeradas.

Em acréscimo a esta degradação ambiental, o Brasil perdeu parte de seu território, principalmente o Nordeste, que se transforma numa Reserva Multinacional. Foi cedido a outros países e grupos econômicos internacionais, provavelmente por causa da dívida externa do país. Esta perda provoca um grande êxodo de nordestinos para o Sudeste, que os reprime construindo grandes cercas em tornos das áreas metropolitanas de suas principais metrópoles. Assim é que se concentra nos arredores de São Paulo, uma quantidade imensa de acampamentos, verdadeiro campo de refugiados dentro do próprio país. Sem poder voltar ao que perdeu. E sem poder entrar no que nunca, de fato, pôde desfrutar.

Neste contexto de repressão política e caos ambiental, o melhor tipo de emprego que se pode conseguir é por meio da adesão ao regime, ou seja, sendo militar ou um burocrata. Ou as duas coisas, os tais ‘militecnos’, que atuam em empresas estatais e cargos de direção do Estado – aqui chamado de Esquema – certamente uma alusão aos tecnocratas dos anos 1970 de nosso país. Para desgosto do antigo contestador Souza, há um militecno em sua família, seu jovem sobrinho. Há também os ‘civiltares’, espécie de segmento responsável pelo patrulhamento, espionagem e repressão do regime. Tropas de elite de cunho civil-militar, mantidas pelo Estado e por grupos privados que o apoiam, de caráter paramilitar, o que lhe abre a oportunidade de agir frontalmente às margens de lei já por si mesmas discricionárias.

Dentro deste cenário geral, o romance é narrado em dois planos que se justapõem, o macro e o micro. No micro, a história pessoal de Souza e de como é a sua vida neste país governado há cerca de 40 anos pelos militares. No macro, a contextualização social, política e ecológica desta realidade.

Impressiona o nível de detalhes que o autor elabora para construir a sua ditadura que nunca terminou. Nesta São Paulo, as pessoas vivem restritas aos seus bairros. Precisam de bilhetes especiais para transitar pela cidade. Se os perdem simplesmente não podem voltar para suas casas.

Através da perspectiva de Souza, um intelectual sufocado pelo regime e que ainda carrega culpas dentro de si mesmo, Loyola extrapola a ditadura militar para o futuro próximo, sempre olhando para o passado. Este é um recurso válido, pois permite uma visão retrospectiva de como um futuro veria a ditadura dos anos 1970 e 1980. Em termos de ficção científica é manjado, com um observador exterior (geralmente um alienígena ou viajante do tempo) usado para comentar as mazelas de nossa civilização. Já no caso do livro, o observador é o próprio protagonista (em primeira pessoa), pois não há propriamente um encadeamento de sequencias no desenrolar da narrativa. Tanto que o romance recebe o subtítulo de “memorial descritivo”, embora por meio deste recurso o contexto geral seja aprofundado com o drama crescente vivido pelo protagonista. Ao invés do personagem se movimentar dentro de um mundo – e desta forma procurar modificá-lo –, é como se este mundo impulsionasse e transformasse o personagem.

Ademais, a decorrência mais comum desta linha de abordagem narrativa são as observações sarcásticas que ridicularizam o regime de uma forma geral.  Loyola é particularmente feliz com colocações agudas que provocam no leitor aquele sorriso torto no canto da boca, tanto de lembrança do fato, como de sua interpretação absolutamente demolidora do nonsense daquilo tudo. Então há os que se ‘locupletaram’(fala aqui de boa parte da classe média), os ministros ‘embriagados’, os corruptos e os apenas incompetentes. Chega a nomear algumas fases pelas quais passou o regime, de clara ressonância para quem o viveu, como por exemplo, os “Abertos 80”, uma referência ao processo de abertura que o regime viveu a partir de meados dos anos 1970 e que chegava ao auge no começo dos 1980, e à “Era Casuística”, esta dos anos 1970, quando os militares mudavam as regras eleitorais para favorecer os políticos do partido que os apoiava.[2]

Em meio a este contexto, surge um furo numa das mãos de Souza, pretexto para a virada definitiva em seu comportamento e para os rumos da própria história. Por medo do que lhe possa acontecer – ser preso e confinado ao isolamento, ou perder o emprego –, ele resiste em ir ao médico, apesar dos apelos de sua passiva e conservadora Adelaide, sua esposa. Passa também a enfrentar seu sobrinho milico e relaxa com sua higiene e alimentação, além de chegar atrasado para o trabalho.[3]

Souza vai gradativamente deixando sua resignação de lado, bem como sua segurança econômica, pois é demitido do emprego, abandonado por sua esposa e tem seu apartamento invadido por um grupo de estranhos, aliados de seu sobrinho, como parte de uma atividade de contrabando ilegal de alimentos. Muito deprimido com tantas mudanças pessoais, Souza é impotente para expulsar os invasores. Mas reage quando estes começam a matar aqueles que os incomodam, os pedintes e mutantes que aos poucos rompem os acampamentos e entram em São Paulo, aumentando ainda mais o caos social e o grau de opressão.

Souza teme ser morto e acaba sendo abandonado em um lixão na periferia da cidade. Vira um ninguém, como tantos pedintes, desempregados e refugiados que ele antes tinha pena, quando ainda possuía uma ocupação, residência e esposa. Neste processo de decadência pelo qual passa o protagonista, Loyola nos fala da degeneração social e moral da própria sociedade submetida ao um regime perverso e sem freios.

Outro aspecto interessante é que Loyola contrapõe o seu Brasil distópico como uma espécie de antítese da tradição da ficção científica anglo-americana. Chega a citar autores importantes do gênero e as supercivilizações tecnológicas que criaram e como teríamos engendrado por aqui o inverso: Uma urbe superpopulosa, poluída, caótica e sob uma ditadura. Como se realmente tivéssemos ficado sem ver país nenhum.

Mary Elisabeth Ginway, em Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir, 2005) observa outro aspecto, de que Loyola aproveita para criticar a ficção científica anglo-americana, vista por ele como excessivamente otimista, determinista ou mesmo ingênua sobre o impacto da tecnologia na sociedade e na ação dos indivíduos. Faz sentido, mas talvez da perspectiva dela – como uma americana – e não da perspectiva de quem faz a análise a partir de seu país, como o meu caso. Ou, creio, como na intenção original do autor.

Qual? A de um Brasil que a partir do autoritarismo falha definitivamente em ser o tal país do futuro, que se imaginava pudesse ser algo semelhante a algumas das utopias hedonistas e tecnicistas da ficção científica escrita no Norte. Nesta linha de interpretação, àquilo que se assemelhava a uma ficção científica para o Brasil teria de ser de má qualidade, no sentido de só podermos produzir anti-utopias para o nosso país. Mas, ao menos no caso de Loyola, com sofisticação.

Isso porque o romance lembra a estrutura paranoica vista na maior das anti-utopias, 1984, de George Orwell, embora pelo ponto de vista de sua ineficiência de gestão, ainda que com repressão. E uma estrutura existencial à lá Kafka, remontando a uma melancolia com o estado geral das coisas, ilustrada, claro, por situações absurdas. Mais absurdas ainda porque reais. Como o sumiço final do furo na mão de Souza, o último sujeito dos porquês em um mundo que se esqueceu de questionar a si mesmo e se entregou a um niilismo quase suicida.

Vale a pena citar ao menos uma passagem que mostra a sensibilidade crítica do autor com relação à postura das pessoas com respeito aos efeitos de um regime autocrata:

“Fomos nos habituando, de tal modo que passamos a pactuar com a tragédia, aceitando-a como cotidiano. Me espanta essa capacidade de acomodação da mentalidade, sua adaptação ao horror. Acredito que a gente possua um componente de perversidade que nos leva a encarar como normal esse pavor, a desejá-lo, às vezes, desde que não nos toque. Uma porcentagem de perversidade que tem sido alimentada pelo Esquema, essa coisa tão abstrata, que consegue se manter em meio à anarquia, ao caos estabelecido como ordem, à anomalia mascarada em progresso.” (página 191).

No fundo, Loyola descreve o fracasso do projeto de modernização do país e seus efeitos no cotidiano e mentalidade das pessoas. Uma opção de desenvolvimento importante não criada, mas ampliada de forma exagerada e distorcida pelos militares, por eles ufanistamente nomeada de “Brasil Potência”, com super usinas hidrelétricas e nucleares. E o autor escreveu justamente na época em que as esperanças do país renasciam, os anos 1980, por causa da liberalização política do regime e as perspectivas concretas que se avizinhava para o retorno da democracia.

Se o pessimismo da obra não coaduna com o momento específico que o país vivia, talvez seja porque o autor não acreditasse de fato que o país voltasse à ordem constitucional ou então de que mesmo nela o país já estaria inviável do ponto de vista de sua modernização e equidade social. Desta forma, Não Verás País Nenhum é o Brasil do futuro que nunca se realizou.[4]

Este é o melhor romance brasileiro de ficção científica já escrito. Um exemplo concreto das potencialidades de uma ficção de caráter especulativo que contesta a  realidade e reflete sobre os problemas do país e do mundo contemporâneo. E, se possível, responda a alguma inquietação existencial do próprio autor.

Marcello Simão Branco, mestre e doutor em Ciência Política pela USP, organizou a antologia Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (Devir, 2011). É professor adjunto de “Compreensão da Realidade Brasileira”, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Notas:

[1] Recebeu, por exemplo, o Prêmio Illa, como o melhor livro latino-americano publicado na Itália em 1983, e resenhado no The New York Times Book Review.

[2] No artigo “Ventos de Mudança: A Ficção Científica Brasileira e a Transição Democrática”, argumento que Não Verás País Nenhum foi um romance que inaugurou uma mudança temática dentre aqueles que discutiram criticamente o regime militar. Pois quando escrito não se estava mais no período mais sombrio da repressão – da ficção distópica – , mas sim no contexto do processo de liberalização do regime – uma ficção da abertura. Desta forma sinalizou, em termos literários, as novas perspectivas que se abriam para o Brasil. Ver em Semina: Revista de Ciências Sociais e Humanas, vol. 34, n. 2, 2013.

[3] Na coletânea Cadeiras Proibidas (1977), o autor retoma o tema no conto absurdista “O Homem do Furo na Mão”.

[4] No lançamento do livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, de M. Elisabeth Ginway, em 27 de julho de 2005, Loyola afirmou, em um debate na livraria Fnac, em Pinheiros, São Paulo, que este livro foi a conclusão de sua trilogia sobre a ditadura militar. Teria começado com sua instauração com Zero (1974), analisado o codidiano das pessoas sob sua vigência na coletânea Cadeiras Proibidas (1977) e especulado o seu desfecho futuro com Não Véras País Nenhum (1981). Em termos literários, provavelmente, a melhor contribuição a este perído histórico do país.

Manifesto pela Legalidade Democrática e Manutenção do Estado de Direito

A área de Compreensão da Realidade Brasileira da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo, por seus professores e apoiadores que voluntária e pessoalmente subscrevem esta carta, manifesta completo e irrestrito repúdio aos movimentos de ataque ao Estado Democrático de Direito que se desenrolam, nesse momento, no Brasil.

1. Como docentes e pesquisadores, entendemos que a construção de uma sociedade justa, plural e democrática que garanta direitos civis, políticos e sociais em todo nosso processo histórico político resultou de trabalho árduo de gerações de brasileiros. Mesmo com limitações, a Constituição de 1988 é o resultado de inúmeras lutas contra forças autoritárias e ditatoriais que nossa sociedade civil não pode permitir que saiam novamente à cena criando crises, incitando e gerando a violência.

2. Defendemos a manutenção da coisa pública em todos os seus espaços. Julgamos que a corrupção é o artifício para que a lei, que deve ser igual para todos, funcione de forma desigual e vantajosa para detentores de poderes políticos, institucionais e econômicos. Desse modo, defendemos o combate a todo tipo de corrupção, em todos os níveis da sociedade. Igualmente repudiamos o uso discursivo, persecutório e político do combate à corrupção para remoção imoral de adversários da cena política utilizando os códigos jurídicos de forma incorreta e flagrantemente desonesta.

3. Toda a corrupção deve ser investigada e combatida. Toda ela, não apenas uma parte como ocorre atualmente, tendo como desenrolar provável a ocupação dos diversos escalões do Executivo Federal pelos mesmos corruptos que desfrutaram da coisa pública até antes de 2003. Esse combate só será possível dentro de um Estado efetivamente democrático e com instituições realmente justas.

4. Acreditamos que os fins não justificam os meios. O que significa que o Poder Judiciário não pode atuar como se fosse um novo Poder Moderador sobreposto à sociedade brasileira. Todos os juízes, promotores, procuradores, desembargadores e demais servidores públicos do Judiciário, de qualquer nível e instância, devem satisfações aos códigos processuais e à legislação como qualquer cidadão, acrescida a isso a responsabilidade de agirem com a serenidade de quem, com uma simples assinatura, pode produzir injustiças, desordem e atentar contra o próprio Estado Democrático. Exigimos um Direito que promova a Justiça.

5. As experiências históricas nos mostram que todo golpismo se fundamenta no discurso de combate às práticas cotidianas destes mesmos grupos golpistas, numa inversão perversa de valores e uma moralização oportunista da política. Os que hoje atacam a Democracia estão submersos em atividades de apropriação privada da coisa pública, sonegação, desvios, ocultação de patrimônio, remessa ilegal de dinheiro para o exterior e muitos outros crimes que buscam encontrar até mesmo em pessoas contra as quais não há uma única prova sequer. Igualmente, os golpes praticados anteriormente nos mostram que, após terem sucesso, aumentam-se tais práticas, revogam-se direitos conquistados com árduas lutas e dilapidam o Estado, inclusive com expurgos ilegais de seus opositores.

6. O que está em jogo é muito maior do que a mera defesa de um governo. A crise econômica é mundial, não apenas brasileira. As reais motivações na tentativa de derrubada do governo estão: privatização total da Petrobras e dos bancos públicos, cassação de direitos trabalhistas, revogação de direitos fundamentais para impedir a resistência política, desmantelar a previdência social e desvincular a obrigatoriedade constitucional de União, estados e municípios empregarem porcentagens de suas arrecadações em saúde e educação, abrindo o caminho para que tais direitos sejam completamente privatizados. Como professores do ensino superior público temos o dever de denunciar este movimento.

7. Por fim, conclamamos todas as forças democráticas, das universidades, das instituições representativas da sociedade civil e política, das cidades, do campo e do ambiente familiar a defenderem o Estado Democrático dos ataques impostos por setores empresariais, do poder judiciário, das polícias e das corporações midiáticas.

Osasco, 20 de março de 2016

Professores da área de Compreensão da Realidade Brasileira

Claudia Moraes de Souza – Historiadora
Daniel Monteiro Huertas – Geógrafo
Marcello Simão Branco – Cientista Político
Murilo Leal Pereira Neto – Historiador

Demais colegas da Universidade Federal de São Paulo, Campus Osasco

Alberto Handfas – Economista
Antonio Roberto Espinosa – Filósofo e Cientista Político
Carlos Alberto Bello – Economista, Campus Guarulhos
Claudia Alessandra Tessari – Economista
Claudia Mazzei Nogueira – Docente de Serviço Social, Campus Baixada Santista
Cleber Santos Vieira – Historiador, Campus Guarulhos
Crysthian Grayce Raviani – TAE
Daniel Augusto Feldmann – Economista
Douglas Mendoza – Sociólogo
Fabiana Rita Dessotti – Economista
Fabio Alexandre dos Santos – Cientista Social
Fabio Cesar Venturini – Jornalista e Historiador
Fernando Sfair Kinker – Cientista Social, Campus Baixada Santista
Glaydson José da Silva – Historiador, Campus Guarulhos
Henrique Parra – Cientista Social – Campus Guarulhos
Ismara Izepe – Historiadora
Janderson Souza – Letras, Campus Guarulhos
Janes Jorge – Historiador, Campus Guarulhos
João do Prado Ferraz de Carvalho – Historiador, Campus Guarulhos
Julio Cesar Zorzenon Costa – Historiador
Karen Fernandez Costa – Cientista Política
Luciana Rosa de Souza – Economista
Luiz Leduino de Salles Neto – Matemático, Campus São José dos Campos
Magali Aparecida Silvestre – Educadora, Campus Guarulhos
Marcelo Soares de Carvalho – Economista
Maria Fernanda Lombardi Fernandes – Historiadora, Campus Guarulhos
Marina Gusmão de Mendonça – Historiadora
Natasha Schmitt Caccia Salinas – Advogada
Nilton Pereira dos Santos – Economista
Pedro Chadaverian – Economista
Renata Gonçalves – Docente de Políticas Públicas, Campus Baixada Santista
Rodrigo Medina Zagni – Historiador, Campus Osasco e presidente da Adunifesp
Rosilda Mendes – Políticas Públicas, Campus Baixada Santista
Sandro Kobol Fornazari – Filósofo, Campus Guarulhos
Virgínia Junqueira – Médica, Campus Baixada Santista

Discentes da Universidade Federal de São Paulo
Amanda de Oliveira
Amanda Miranda
Amanda Pires
Ana Beatriz Luz
Ana Carolina Silveira
André Mogadouro
Anna Carolina Rinaldo
Ayrton Lunguinho
Bianca Goyanna
Bruna Santos
Camila Azevedo
Cauê Carvalho
Cláudia Ferreira dos Santos
Gabriel Freitas
Gabriel Luis Baptista
Gabriela Duarte
Guilherme Barros
Harutyun Ghazaryan
Heidy Motta
Henrick Santana
Jéssica Giani
João Victor Cardoso de Souza
Karen Cecílio
Karl Pinheiro
Larissa Leite
Leticia Guimaro Caccia
Leticia Rizzotti
Marina Leite Pereira
Marina Sbrana
Mateus Ferreira
Matheus Ataliba da Silva
Matheus Modina
Melissa Pedroso Moura
Nathalia Azevedo
Paulo Afonso C Silva
Pedro Quintiliano
Renan Alves
Rosa Donnangelo
Sergio Peruzza Júnior
Stephany Andrade
Tamires Sena
Thainá Elvira
Thaina Lépore
Thainara Pimenta
Thaís de Cássia
Thiago Mazagão
Valéria Ribeiro
Victória Munhoz
Vinícius Plá Gil
Vinícius Reis
Vitor Torsani
Vitória Mikan
Wallan Braga

Similaridades e diferenças com a crise de 1964

DSC_0098Nestes dias têm surgido muitas análises buscando ligar a crise atual com os eventos de 1964 que resultaram na última ditadura brasileira. O discurso jornalístico é quem lidera estas análises difusas que sem uma mínima organização podem nos levar tentar encontrar um caminho que levaria efetivamente a uma ditadura e, dessa forma, pode ser evitado. Neste texto busco levantar algumas questões metodológicas nesse tipo de análise e identificar as similaridades e diferenças significativas que poderiam nos levar a uma quebra radical do estado como atualmente constituído. Continuar lendo