“Vem prá rua vem contra o aumento!” A marcha do busão vista por dentro

As manifestações contra o preço da passagem em São Paulo estão sendo convocadas pelo Movimento Passagem Livre nas redes sociais. Ele tem articulação com ações semelhantes em Porto Alegre, Goiânia, Natal, Florianópolis e Rio de Janeiro, mas o governo do estado de São Paulo, a prefeitura da capital, a Polícia Militar e a mídia burguesa estão apresentando todos os atos como vandalismo e desordem. Assim os movimentos sociais desta natureza podem ser qualificados como criminosos e os participantes estão sujeitos a severas penas. Este método é tradicionalmente usado no Brasil, seja em períodos ditatoriais ou nas aparentes épocas democráticas.

Como quase toda cobertura é feita a partir da visão do Estado e do seu preposto imediatamente envolvido, que é o Policial Militar, acompanhei a marcha do dia 11 de junho para verificar o que ocorre a partir de dentro da multidão, vendo o soldado de frente, com o rosto carregado de ódio atrás do escudo enxergado pelo cidadão.

A concentração inicial foi realizada na Praça do Ciclista, trecho da Avenida Paulista entre a Rua Haddok Lobo e a Rua da Consolação, sob o olhar atento da imprensa e da PM. No horário marcado havia cerca de 1.500 pessoas, quando foi possível ver um grupo de organizadores, todos encapuzados, e uma porção de faixas declarando filiação política: estavam pelo menos PSOL, PSTU, PCO, União Nacional dos Estudantes, Sindicato dos Metroviários e União da Juventude Socialista. Além de faixas e bandeiras destas entidades, uma série de flâmulas vermelhas e pretas (cor do movimento político anarquista), cartolinas, plásticos e camisetas independentes chamavam o valor da passagem de ônibus de roubo.

Os rostos mostravam que eram jovens de diversas origens econômicas e sociais, mas todos com discursos condizentes com pessoas que têm plena consciência do que dizem e querem. Aparentemente a passagem de R$ 3,20 é uma bandeira que traz como mastro reivindicações que arrepiam os pelos mais íntimos dos governos estadual e municipal: a estatização do transporte público, preferência a meios coletivos em detrimento dos automóveis, reorganização urbanística, transparência nas contas públicas, especificamente as obras da copa do mundo, e fim de privilégios a grandes empresas.

Como uma das táticas comuns da PM para dissolver manifestações é identificar e prender líderes, grande parte dos participantes cobriram o rosto desde o início.

Como uma das táticas comuns da PM para dissolver manifestações é identificar e prender líderes, grande parte dos participantes cobriram o rosto desde o início.

Ao redor de 18h, a saída dos trabalhadores das empresas da região mostrava uma quantidade significativa de pessoas que, em vez de tomar o rumo do ônibus ou do metrô, juntavam-se à concentração. Centenas, senão milhares, aliviaram as roupas formais, abriram um botão a mais da camisa social e colocaram a mochila nas costas para acompanhar a manifestação. Os grupos já presentes, com trombones, bumbos, tambores e até latas vazias de tinta improvisadas como instrumentos de percussão, puxavam os cantos de protesto, sendo mais frequente uma coreografia ao som de “Dança Haddad, dança até o chão, é o povo na rua contra o aumento do busão”.

Em escolas, Unidades Básicas de Saúde e janelas de escritórios os populares aplaudiam e faziam sinal de apoio à manifestação. Em algumas salas comerciais havia indivíduos com olhar de medo para todas aquelas pessoas que caminhavam em um espaço determinado para carros e congestionamento. Os amedrontados normalmente vestiam terno e gravata.

A marcha saiu pela Rua da Consolação chamando as pessoas dos arredores, aos gritos de “Vem prá rua vem contra o aumento”. A cada trecho percorrido a marcha crescia, mesmo com a chuva fria que caiu naquele momento. Dentro da multidão que inchava alguns jovens sacaram latas de spray e começaram a pichar paredes e fachadas com dizeres de “3,20 não!”, “Vândalo bárbaro não, submetido à escravidão”, “Periferia resiste” e “Polícia fascista”. Pela correção gramatical reinante ficou claro que a ignorância não era o tom da multidão.

Marcha sob a chuva na Rua da Consolação foi observada com apreensão e desaprovação por alguns e sob aplausos de parte dos pedestres.

Marcha sob a chuva na Rua da Consolação foi observada com apreensão e desaprovação por alguns e sob aplausos de parte dos pedestres.

Os pichadores não foram coibidos pela polícia. A cada garoto ou garota com uma lata na mão se juntavam uma multidão de repórteres fazendo fotografias e vídeos. Um cordão policial acompanhava a marcha, com os soldados portando cassetetes e pistolas municiadas.

Para garantir a lei e a ordem, arma de fogo pronta para o uso.

Para garantir a lei e a ordem, arma de fogo pronta para o uso.

Os policiais, visivelmente pilhados emocionalmente e molhados, foram verbalmente provocados com frequência e vez por outra detinham algum dos falantes, estimulando pequenos focos de conflito entre manifestantes e PMs, ao som dos gritos de “Você aí fardado também é explorado” e “Não é mole não, policial também pega busão”.

Provocações e revides marcaram a relação entre policiais e manifestantes durante toda a marcha.

Provocações e revides marcaram a relação entre policiais e manifestantes durante toda a marcha.

Servir, proteger e botar pilha

Na região da Praça Roosevelt a marcha tomou a direção da Ligação Leste-Oeste. Um jovem que provocava os soldados foi removido da marcha por policiais e levado para a Rua Conselheiro Ramalho, onde foi espancado. Enquanto passava com a máquina fotográfica atrás de imagens da ocorrência uma moradora me pediu: “Moço, vai lá fotografar porque estão judiando do menino”.

Outros manifestantes foram para o local tentar resgatar o preso, acusado de pichação (o muro mais próximo da marcha quando ele foi preso estava a uns 30 metros) e entraram em confronto com os poucos PMs. Um capitão chegou no local de confronto e pediu trégua aos manifestantes. Pela desvantagem numérica dos policiais, seriam massacrados ou teriam de usar as pistolas.

Oficial da PM pede trégua após detenção de jovem manifestante.

Oficial da PM pede trégua após detenção de jovem manifestante.

Ao lado, um repórter dizia ao telefone para sua redação: “Coloque aí que na Rua Conselheiro Ramalho os manifestantes agrediram um pequeno grupo de policiais”.

Os que não foram detidos voltaram para a marcha, que tomou a Avenida Liberdade seguindo até a Praça Clóvis, onde havia um ônibus movido a energia elétrica da EMTU parado, desligado, desocupado, estranhamente abandonado próximo ao coração da cidade e no meio do caminho da marcha. Os policiais deixaram o ônibus sozinho e um grupo de jovens foi para cima do autocarro. Colocaram fogo em bancos, picharam contra o preço da passagem e quebraram alguns vidros. Um outro grupo de manifestantes foi até o ônibus para tirar os autores do ataque. Na sequência chegaram rapidamente policiais em motocicletas, um deles portando uma câmera de vídeo, com uma equipe da TV Globo a tira-colo.

Depois de intensa chuva e minutos após ataque a ônibus, equipe da TV Globo apareceu sequinha acompanhando a Polícia Militar.

Depois de intensa chuva e minutos após ataque a ônibus, equipe da TV Globo apareceu sequinha acompanhando a Polícia Militar.

A marcha seguiu para o Terminal Parque D. Pedro aos gritos de “Ô motorista, ô cobrador me diz aí se o seu salário aumentou”, onde era aguardada pelo Batalhão de Choque e pela Força Tática da PM. Outro ônibus da EMTU ficou preso no meio da rua, no caminho dos manifestantes. Alguns rapazes com o rosto coberto entraram e pediram para que todos descessem. O grande efetivo da PM no local deixou, novamente, o ônibus isolado. Depois de alguns minutos, a tensão levou ao óbvio: um pequeno grupo mais exaltado pichou o carro e quebrou os vidros usando as rodas dos seus skates.

Neste momento a PM teve o motivo que precisava para abrir fogo e usar bombas de gás lacrimogêneo. A fumaça que tomou conta do local é composta por cloroacetofenona, um produto químico que reage com a água e se transforma em ácido. Tudo isso sobre cidadãos, jovens, estudantes, trabalhadores e também os pichadores ensopados pela pesada chuva que caiu sobre a marcha por mais de uma hora.

Após ataque a segundo ônibus abandonado no caminho da marcha, choque atacou multidão molhada com gás que se transforma em ácido em contato com a água.

Após ataque a segundo ônibus abandonado no caminho da marcha, choque atacou multidão molhada com gás que se transforma em ácido em contato com a água.

A multidão foi dispersa, porém se reagrupou na Baixada do Glicério, por onde caminhou sem o acompanhamento dos soldados. Daí por diante foi o trecho mais pacífico do movimento. Enquanto em Higienópolis as pessoas perfumadas se encasulavam com medo do povão tomando a cidade, no Glicério, região conhecida como boca do lixo e habitada por gente pobre, os moradores aplaudiam nas janelas, o comércio permaneceu aberto, com vendedores incentivando a marcha e mais gente se juntando na caminhada.

Polícia para quem precisa

Nesta parte a marcha passou a ser acompanhada por um helicóptero da PM. Ela se dirigiu até a Praça João Mendes e entrou pela Rua 11 de Agosto, até a Praça da Sé. No estreito acesso, um grupo tentou invadir o prédio do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, gritando “Justiça de burgueses”. Alguns jovens encapuzados, aparentemente da organização da marcha, impediram a invasão, mas os muros foram pichados com dizeres contra o preço da passagem e contra a Polícia Militar: “Morre coxa!”

Helicóptero da PM acompanhou os passos seguintes até que a força de terra encontrou os manifestantes na Sé.

Helicóptero da PM acompanhou os passos seguintes até que a força de terra encontrou os manifestantes na Sé.

Antes que toda a marcha acessasse a Praça da Sé, por volta de 20h, a manifestação foi recebida de imediato com mais gás lacrimogêneo e cassetetes. A tropa de choque foi para cima com violência, decidida a dispersar definitivamente a multidão, como se o tempo concedido pelo Estado para que os pobres atrapalhassem o trânsito tivesse terminado, fim da brincadeira de revolução. A violência atingiu todos que estavam no local: manifestantes, transeuntes assustados, jornalistas e moradores de rua, também molhados e submetidos ao cloroacetofenona.

Soldado é treinado para destruir, prender, matar, coibir. Sua entrada em ação é sempre ordenada por um poder superior instituído e conivente. Alguém deu esta ordem.

Quando manifestantes chegaram à Praça da Sé foram recebidos com gás e cassetetes.

Quando manifestantes chegaram à Praça da Sé foram recebidos com gás e cassetetes.

À retaguarda da linha de frente da PM estavam as equipes de TV, registrando tudo a partir da visão do agressor, sem o menor contato com os manifestantes e produzindo as notícias dos telejornais da mesma noite. A exceção foi o time de Caco Barcelos, do Profissão Repórter, que acompanhou os confrontos em locais com condições de trabalho complicadas e ouviu diversos envolvidos, até mesmo os moradores de rua da Praça da Sé.

Repórter da TV Globo, cuja equipe esteve sempre protegida e acolhida pela PM. A exceção foi o time de Caco Barcelos, do Profissão Repórter, que acompanhou os confrontos e ouviu diversos envolvidos.

Repórter da TV Globo, cuja equipe esteve sempre protegida e acolhida pela PM. A exceção foi o time de Caco Barcelos, do Profissão Repórter, que acompanhou os confrontos e ouviu diversos envolvidos.

Na sequência a Força Tática seguiu com dezenas de viaturas em perseguição aos diversos grupos da marcha. O maior subiu pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, com destino ao vão do Masp, na Avenida Paulista. Outro grupo voltou para a baixada do Glicério, onde surgiram outras equipes de TV com repórteres sequinhos e bem vestidos. Um comerciante saiu de sua lanchonete gritando contra uma equipe da TV Bandeirantes:

– Imprensa marrom! Imprensa golpista! Seus fascistas! Vocês vão dizer o quê?

O repórter respondeu:

– Vocês que fizeram esta merda!

Voltei à Praça de guerra da Sé. Lá estavam as mesmas equipes de TV acolhidas pela PM. Gravavam suas passagens, entravam ao vivo e coletavam informações adicionais. Na Rua 11 de Agosto, onde uma hora antes havia pichações de cunho político, estava uma equipe de isolamento da PM e uma nova inscrição, com spray mais grosso do que os demais e as letras “PCC”. Esta sigla foi feita depois de dispersada a multidão. Na esquina os soldados faziam fotos e gravavam imagens de uma agência bancária quebrada.

Próximo ao posto policial que fica em frente da Catedral, oficiais davam entrevistas, algumas imprecisas, e indiciavam detidos. Passei por uma jovem repórter que comentava com sua equipe: “Ainda precisamos de números. Número de feridos, detidos, depredações”.

Não parece ser um movimento partidário

Sim, houve pichações e vidros quebrados, normalmente em grandes conjuntos comerciais, prédios de classe média e, como alvo preferencial, agências bancárias, sempre aos gritos de “Burguês ladrão”. Por mais que partidos conservadores e a imprensa da própria burguesia tente negar, a luta de classes existe e em São Paulo, a cidade que mais produz desigualdades no País, está acirrada e se expondo. Ninguém sem motivos sai para as ruas numa noite chuvosa tendo como única certeza saber que em algum momento vai tomar porrada da polícia.

Pichações de cunho político passaram longe de mero vandalismo.

Pichações de cunho político passaram longe de mero vandalismo.

O paulistano mais pobre e trabalhador tem demandas a cobrar dos governos. Um movimento que começou com pouco mais de 1.500 convocados pelas redes sociais e conseguiu adesão gradual, atingindo cerca de 12 mil pessoas, não pode ser entendido como um encontro de mero cunho partidário ou união dos ignorantes pelo vandalismo.

O preço do Metro (estadual) também subiu, mas o alvo preferido foi o prefeito Fernado Haddad, acusado no meio da multidão de ser de um partido que deveria representar os trabalhadores mas se comporta como uma versão menos tosca das antigas administrações coniventes com o oligopólio do transporte público da cidade. Foi uma marcha de cidadãos indignados e que se sentiram traídos pela administração municipal e pelo Partido dos Trabalhadores.

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