Violência policial e tendências jornalísticas incharam as manifestações

Na noite de quinta-feira 13 de junho de 2013, a professora Maria Bernadete de Carvalho caminhava pela Rua da Consolação em direção à sua residência. Por coincidência, este era o trajeto da manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre de São Paulo para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, metrô e trêns urbanos. À cavaleira do fluxo da marcha, foi atingida no rosto por uma bala de borracha no lado esquerdo do rosto.

No ato do dia 17/6, a professora se juntou aos manifestantes. “Eu não estava envolvida, estava apenas passando pela rua e fui atingida. Agora faço questão de participar”, resumiu Carvalho quando caminhava sob pela avenida Juscelino Kubitschek.

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Profª Maria Bernadete de Carvalho: “Agora faço questão de participar”

O MPL era um coletivo que passava despercebido pela maior parte da população. Politicamente tinha um poder quase nulo frente ao rolo compressor dos partidos políticos e entidades representativas atuantes no Brasil. Bastou o governo do estado de São Paulo ordenar que a Polícia Militar o reprimisse pela força na noite do dia 4 de junho, na Avenida Paulista, para que as pessoas afetadas pelo caótico sistema de transporte da capital percebessem que estão com direitos sendo afrontados.

Uma semana depois foram 12 mil, saindo da Avenida Paulista e reprimidos na Sé. Mais dois dias, com saída do Teatro Municipal e emboscada na Rua da Consolação, subiu para 20 mil manifestantes. No dia 17, duas semanas depois do primeiro confronto, mais de 100 mil paulistanos saíram às ruas. A estratégia do governador Geraldo Alckmin de reprimir foi alterada para um súbito respeito ao direito do cidadão.

População na Av. Juscelino Kubitschek. Mais de 100 mil saíram às ruas. Quando uma das três marchas já estava na Estação Berrini, na Marginal Pinheiros, ainda havia gente da mesma marcha chegando até a Ponte Estaiada

População na Av. Juscelino Kubitschek. Mais de 100 mil saíram às ruas. Quando uma das três marchas já estava na Estação Berrini, na Marginal Pinheiros, ainda havia gente da mesma marcha chegando até a Ponte Estaiada

Bandeiras

Nas primeiras manifestações as entidades envolvidas eram claras: Movimento Passe Livre, apoiado pelos partidos da oposição de esquerda (PCO, PSOL e PSTU), outros coletivos, estudantes, Juventude Marxista, anarquistas (movimento político, não de bagunça), Annonymous, União Nacional dos Estudantes e Sindicato dos Metroviários, entre outros. A causa também estava bem centrada na revogação do aumento da passagem de ônibus.

Em 17 de junho a manifestação foi dividida em três, em acordo realizado ainda no Largo da Batata: a maior parte seguiu para a ponte estaiada, ao lado da TV Globo de São Paulo, outra para a Avenida Paulista, onde o PSOL realizou um ato no Vão do Masp, e uma terceira parcela que seguiu para o Palácio dos Bandeirantes.

As divisões estavam previamente acertadas entre as entidades que chamaram a manifestação. No desenrolar, contudo, alguns outros focos de divisão foram promovidos por indivíduos isolados. Membros dos diversos movimentos atribuíram esta rachadura a militantes do PSTU, versão prontamente difundida e que gerou gritos de “O povo unido não precisa de partido” e reprimendas ao PSTU. Nenhuma bandeira foi forçada a baixar, revelando uma multiplicidade de movimentos. “Quem tiver militância partidária e quiser seguir o partido fique à vontade, dizia um manifestante, aparentemente da organização, enquanto outro gritava bastante contrariado: “Vamos em frente, não virem, o PSTU está confundindo a manifestação”.

Com o crescente número de pessoas sem militância política, cresceu na mesma proporção o clamor por outras demandas da população. As maiores delas foram relativas à comunicação social e à Copa do Mundo. Tão frequentes quanto os gritos de ordem contra o valor da passagem foram os que exigiam saúde e educação “padrão Fifa”, a sugestão de colocar a diferença gerada no orçamento pela possível revogação do aumento na conta da federação internacional e até gritos bastante retumbantes de que o Brasil pode abrir mão da Copa do Mundo.

Por toda a cidade as pessoas acompanharam nas janelas de residências e empresas

Por toda a cidade as pessoas acompanharam nas janelas de residências e empresas

Nada poderia ser mais simbólico do que o tal país do futebol rejeitando o torneio que mais adora conquistar em benefício da qualidade de vida da população. Para muitos que compareceram o relato deste momento é que “foi como viver um sonho”.

Acenos, lenços brancos e buzinas de motoboys, motoristas de ônibus e até um maquinista da CPTM engrossaram o coro da manifestação

Acenos, lenços brancos e buzinas de motoboys, motoristas de ônibus e até um maquinista da CPTM engrossaram o coro da manifestação

Também não faltaram outras bandeiras tradicionais da direita reacionária tentando se misturar de forma oportunista às esquerdas para atingir a presidenta Dilma com vistas às eleições do ano que vem. Na Avenida Paulista, por volta de 23h, havia um grupo de integralistas protestando contra a PEC 37, com sua estética verde em tons Plínio Salgado.

Cobertura política das grandes empresas jornalísticas

Também bastante alvejada, pela manifestação foi a cobertura das grandes empresas jornalísticas, principalmente a TV Globo e a Editora Abril, pelo seu principal título a revista Veja.

Acostumadas aos movimentos enquadrados no hábito sindical-partidário, as maiores empresas jornalísticas cometeram um erro crasso na avaliação do Movimento que ora se desenrola no País e tomaram posicionamento clássico de criminalizá-los. O Movimento Passe Livre é um coletivo que atua no debate sobre a mobilidade urbana, pelo menos, desde o Fórum Social Mundial de 2005.

A maioria da população brasileira vive em áreas urbanas com precárias estruturas de saúde e educação. As opções de lazer são de difícil acesso por conta da grande quantidade de gente. Tudo o que envolve a vida do cidadão fora do seu trabalho/emprego, é obstruído pela péssima qualidade do planejamento urbanístico que geram distâncias e congestionamentos desumanos, além, é claro dos ineficientes, torturantes e lucrativos sistemas de transporte.

Na Ponte Estaiada o alvo foi a TV Globo

Na Ponte Estaiada o alvo foi a TV Globo

As primeiras passeatas já mostravam o óbvio: não eram vândalos, eram cidadãos extravasando tudo ao que são submetidos desde que nasceram. Em 2002 a esperança venceu o medo, mas se casou com o mercado, dando luz à frustração. Os movimentos de esquerda organizados de forma apartidária, mas não antipartidária, buscaram a militância junto ao povo mais oprimido, da diarista ao analista de qualquer coisa nas regiões empresariais que perde horas no deslocamento até o trabalho.

Ao ver seu plano de criminalizar o movimento social falhar miseravelmente, as grandes empresas jornalísticas tentam se aliar ao povo, cooptando o movimento para suas velhas bandeiras conservadoras e reacionárias. Em questão de dias os vândalos deram lugar aos manifestantes nas telas e nas capas de jornal.

Toda publicação é um ato político

Não à toa, a maior parte dos manifestantes tomaram parte da Ponte Estaiada, construída na saída da Avenida Água Espraiada (rebatizada pela Câmara dos Vereadores de São Paulo para “Jornalista Roberto Marinho) para a Marginal do Rio Pinheiros. A faraônica construção serve de cenário para alguns telejornais da Globo, que possui estúdios ao lado, na Avenida Dr. Chucri Zaidan.

Uma favela foi violentamente removida do local há quase uma década para que se levantasse o caro cenário. O trânsito, que já era ruim, com a obra ficou pior. O cidadão não precisa estruturar uma tese para saber do que ocorre no seu dia a dia.

Há de se lamentar o fato de os repórteres da TV Globo terem sido impedidos de trabalhar. Caco Barcelos, do Profissão Repórter, que no dia 11/6 teve sua equipe fazendo uma cobertura no local de confronto e ouviu todas as partes envolvidas possíveis de se ouvir, foi rodeado por manifestantes na Berrini e, sem ter como dialogar, deixou o local.

Numa manifestação como esta, que se busca a democracia, faltou a consciência de que é necessário manter o direito à manifestação do pensamento de todos, inclusive da empresa que é baluarte do golpismo comunicacional neste País, com vasto repertório na área. Seria mais proveitoso debater a democratização da comunicação em vez do cerceamento dos repórteres da Globo.

Manifestantes cercaram Caco Barcelos e aos gritos impediram o jornalista de gravar. Ele se retirou.

Manifestantes cercaram Caco Barcelos e aos gritos impediram o jornalista de gravar. Ele se retirou.

Servir e proteger

As palavras polícia e cidadão têm a mesma origem, vêm do grego polis. Sem receber a ordem superior de reprimir, a polícia limitou-se a acompanhar para evitar que algo realmente prejudicial ao cidadão acontecesse. PMs fardados e desarmados acompanharam as marchas do lado de dentro, enviando informações pelo rádio. As provocações foram infinitamente inferiores do que quando havia cordão de soldados com pistolas no coldre. Os gritos de “polícia fascista” foram substituídos por “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”.

Os incidentes tenderam a zero. Há relatos de manifestantes que apagaram de imediato pichações feitas pelos mais desajustados que não perceberam a relação entre o seu spray e o esforço hercúleo feito por grandes empresas jornalísticas em transformar todo o movimento em crime.

Nesta situação, a conduta de alguns PMs pode ser considerada excesso. Somente alguns, pois até mesmo os soldados que estavam nos arredores, embora não aparentassem estar contentes, também não demonstravam a total pilha emocional da semana anterior.

Policiais desarmados acompanharam manifestação por dentro, enviando informações para o comando. Em alguns momentos chegaram a sentarem-se com os manifestantes, evitando dicotomizar com as pessoas nas ruas.

Policiais desarmados acompanharam manifestação por dentro, enviando informações para o comando. Em alguns momentos chegaram a sentarem-se com os manifestantes, evitando dicotomizar com as pessoas nas ruas.

 

Os erros gerados nas ações ilegais dos dias 11 e 13 de junho se deram após receberem ordem superior, de representantes de altos cargos do governo do estado. Os erros cometidos individualmente por PMs são processuais. Quando os policiais do choque apertaram o gatilho na semana passada, não o fizeram sozinhos. Havia na sua retaguarda um governo, um Estado, uma imprensa, editorialistas e classes sociais que o enviaram para ser a bucha de canhão, o próximo condenado pelos erros dos comandantes-em-chefe.

O único confronto foi no Palácio dos Bandeirantes. Os manifestantes estava em vias de conseguir uma audiência com o governador quando houve tentativa de invasão, também atribuído a grupos que estariam tentando usar a manifestação de forma oportunista. O enredo de como a PM começa os confrontos já está vastamente conhecido pela população. Porém não vem à mente alguma revolução que tenha logrado êxito tomando o palácio antes das cidades. De ambos os lados, um confronto desnecessário e desprovido de inteligência.

Sem violência: Jovens parando carros para a marcha seguir pela Marginal Pinheiros. Polícia apenas observou e manifestação de dispersou pelo cansaço dos participantes

Sem violência: Jovens parando carros para a marcha seguir pela Marginal Pinheiros. Polícia apenas observou e manifestação de dispersou pelo cansaço dos participantes

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