Marcha da Família edição 2014

Por mais que se tente relatar, a marcha foi muito autoexplicativa Como pesquisador da ditadura, não poderia me furtar a acompanhar in loco a versão 2014 da Marcha da Família com Deus, realizada neste sábado (22/3) em São Paulo. Em meio a faixas contra o comunismo, camisetas sugerindo o deputado Jair Bolsonaro como presidente e odes ao astrólogo orgânico e professor do grupo, Olavo de Carvalho, o encontro foi um festival de ilações e sofismas.

O encontro inicial, ironicamente em frente à Secretaria Estadual de Educação, na Praça da República, foi um show de horrores na escrita da História do Brasil a partir do que aquelas centenas de pessoas queriam que tivesse acontecido, ou talvez tenha mesmo ocorrido de acordo com seus pesadelos. Defenderam o golpe de 1964 como uma prevenção contra a proximidade de João Goulart com o comunismo, o que estaria acontecendo atualmente com o governo do PT e, portanto, demandaria uma intervenção militar, segundo o grupo, amparada na Constituição de 1988.

Nenhuma organização política de estofo compareceu em apoio. Os integrantes foram basicamente militares da reserva (Marinha, Exército, Força Aérea e Polícias Militares) e familiares, skinheads, grupos integralistas, religiosos cristãos (católicos e protestantes) politicamente radicais e até um grupo de maçons que, embora disseram não representar a instituição maçonaria, clamaram no carro de som para que os maçons do Brasil “comecem a pensar”.

A pauta do encontro foi muito bem definida (anticomunismo e intervenção militar “constitucional”), mas contraditoriamente fundamentada em ilações como a “falta de credibilidade das eleições com urnas eletrônicas” que elegem o PT, no “apoio do governo federal ao terrorismo internacional”, a ameaça do aborto à família cristã etc. etc. etc.

Carro de som: a fonte

Carro de som: a fonte

Do carro de som bem guardado por seguranças da organização e soldados da Força Tática da Polícia Militar de São Paulo, saíam gritos pela moral, defesa das “leis de Deus” e ódio aos diferentes. Durante a concentração na República, iniciada às 15h, na “marcha” de menos de 2 km até a Praça da Sé, os manifestantes apelaram para símbolos do civismo, em especial a bandeira (“matem os comunistas pela ordem e pelo progresso, como manda nossa bandeira”) e o hino nacional, entoado pelo menos uma dezena de vezes. Também foi bastante usada a música “Eu te amo meu Brasil”, gravada no começo da década de 1970 pelo grupo Os Incríveis. Os gritos de ordem mais comuns foram:

  • Não queremos eleição, queremos intervenção.
  • Um dois três, quatro cinco mil, queremos militares protegendo o Brasil.
  •  Um dois três, quatro cinco mil, queremos militares comandando o Brasil.
  • Um dois três, quatro cinco mil, queremos que a Dilma vá pra puta que pariu.
  • Um dois, três, Lula no xadrez.
  • Verde e amarelo contra a foice e o martelo.
  •  Deus, pátria, família.
  •  Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amô-ooor.
  •  Viva a PM.
Destino da marcha foi a escadaria da Catedral da Sé

Destino da marcha foi a escadaria da Catedral da Sé

A Polícia Militar montou dois cordões, como margens, para que o grupo de manifestantes seguisse pelas ruas do centro. Muito significativo ser este cordão para proteção, não para controle e eventual agressão, como em outras manifestações. Vez por outra algum “comunista” (=pessoa que pensa de forma diferente e por isso merece apanhar/morrer) era agredida por rapazes mais exaltados, quando a PM intervinha levando o “comunista” embora na viatura (única forma segura de deixar o local para os agredidos). No meio dos agressores se ouvia “não proteja polícia, mata esse comunista!”

Ao contrário das demais manifestações em SP, PM fez isolamento de proteção à marcha.

Ao contrário das demais manifestações em SP, PM fez isolamento de proteção à marcha.

Os discursos no carro se inflamavam em conjecturas de como o governo federal é comunista por causa do marco civil da internet, prevaricador pela falta de investigação de remessas de dinheiro para Cuba feitas pela presidente Dilma Rousseff (de quem o Brasil teria se tornado) e fradulento, uma vez que as urnas eletrônicas não são seguras porque um vídeo do youtube, feito por pessoas desconhecidas, mostrou que não são. As fundamentações dos discursos passaram por exemplares como:

  • Comunismo nunca mais
  • Está nos jornais de hoje, eu não estou mentindo
  • Sabemos que o fascismo é uma forma de esquerdismo
  • Viva a ditadura
  • Não falem com a imprensa comunista que está aqui, não revidem porque é isso que eles querem
  • Uma salva de palmas ao general Olympio Mourão Filho, aquele que começou a revolução redentora em 1964, um herói nacional do mesmo nível de Duque de Caxias e do general Osório
  • O comunismo matou mais de 100 milhões. Na ditadura matamos apenas 400 vagabundos
  • Agradecemos à Polícia Militar que está nos escoltando, limpou o caminho e vai limpar o Brasil. Viva a PM, nós te amamos, respeitamos, vocês são nossos heróis
  • Juventude brasileira, mexa-se, deixem de ser acomodados, deixem de ser idiotas, de ser black block e vamos nos unir para mudar este país. Os militares estão a nosso favor, Deus está com a gente. Juventude, acorde para a vida!

Grande parte dos transeuntes que viram a marcha estava perplexa. Deixei o encontro do ódio na estação de metrô da Sé, assim como alguns “manifestantes”. Tomei o mesmo vagão que um dos participantes que agredia “comunistas” pelas ruas do centro. Lá no trem encontrei dois conhecidos e comentei ter sido uma das coisas mais surreais que já vi, dos absurdos propalados. Não sou exatamente uma pessoa pequena e o valentão estava sozinho. Em vez de canalizar o ódio em murros e pontapés, como praticou com prazer acompanhado por outros corajosos, apenas me fulminou com os olhos.

Esta marcha não pode ser levada a sério, mas também não deve ser ignorada. Juntos eles podem fazer muita desgraça.

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