A luta do bem contra o mal, ou a política como melodrama

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É comum nas salas de aula do ensino superior o docente de disciplinas de humanas e sociais lidar com a seguinte “ideia”: a mídia manipula a massa politicamente. A bem de uma interpretação que não atribua a onipotência que os meios de comunicação efetivamente não possuem per si, tampouco trate a população como um amontoado de semipensantes, precisamos entender todos os sujeitos envolvidos na complexa relação entre política e meios de comunicação.

Manipulação da massa e alienação de classe

As explicações à direita do pensamento político sobre essa suposta “manipulação” se valem da categoria “massa” em relação dicotômica com a “elite”. Parte do pressuposto de que a sociedade é formada por um grupo seleto de pessoas pensantes e que conquistaram pelo mérito o prestígio necessário para se constituir como nata diretora da sociedade, enquanto o outro grupo é formado por pessoas incapazes de decidir o seu futuro com próprias mentes. Sendo assim, não atingiram um nível civilizatório e de engrandecimento espiritual/intelectual que as capacitassem para participar de decisões democráticas que influenciam suas próprias vidas. Para salvar a massa dela mesma, a “elite” usa os meios de formação (instituições de ensino) e informacionais para direcionar a nação no bom caminho do processo civilizatório.

A “manipulação” é enxergada à esquerda com explicações derivadas de um marxismo vulgar bastante comum nos meados do século XX, época de influência do Partido Comunista Soviético sobre os PCs ao redor do mundo. As classes burguesas exerceriam seu poder nos meios de comunicação pela compra de espaço publicitário, aprisionando a imprensa livre e alienando o trabalhador. Logo, seria necessário realizar um trabalho de “conscientização” do trabalhador para engajá-lo na luta de classes com vistas ao desenvolvimento das forças produtivas (o que na América Latina implicaria promover primeiro uma revolução burguesa contra “resquícios feudais”) e a certa revolução proletária socialista. Além disso, seria necessário conquistar a isenção da imprensa livre (ideal, veja bem, liberal burguês que nunca deixou o campo do idealismo).

Em ambos os casos, os meios de comunicação estão a serviço de um discurso, não de um dado de realidade, seja como veículos de pessoas superiores que buscam o bem dos bárbaros, seja como fiscais do processo civilizatório e de desenvolvimento que culminaria inevitavelmente no socialismo. A experiência depois da difusão massiva do rádio e da TV mostrou que é tudo bem mais complexo.

Episteme popular

Nos Estudos Culturais ingleses, Edward Thompson e Raymond Williams resgataram algumas interpretações realizadas pelo próprio Karl Marx, além de outros pensadores como Antonio Gramsci e Walter Benjamin, no sentido de que, para formar uma classe social, os membros de um determinado grupo (burguesia, proletariado, pequena burguesia etc.) devem ter, necessariamente, consciência da sua condição nas relações de produção da vida. Somente assim poderiam ser e agir como classe. Caso contrário, a falta de entendimento sobre o seu lugar social, as razões para sua vida ser como é, este grupo passa a ter o comportamento de massa: não pensa, não decide, apenas segue a tendência que melhor se apresenta. Defende o estado das coisas como se a sua própria existência dele dependesse.

Estas tendências se apresentam nos meios de comunicação, nas instituições de ensino, nas instituições religiosas e na família.

Para compreender esta dominação oculta é preciso ainda identificar a falta de lastro na interpretação presente no pensamento linear (da bárbárie à civilização) marcante tanto no idealismo burguês (elite-massa) quanto nas versões vulgares do marxismo (burguesia alienante-proletariado alienado). Na vida local, na comunidade, no bairro, há consciência das condições de vida formadas a partir das tradições culturais. As formas de pensar têm seus motivos na tradição oral, na produção de conhecimento por senso comum, pela religiosidade, interferindo nas percepções de vida a partir de um tempo-espaço da experiência local, ou seja, uma consciência “popular”.

O capitalismo tem sido prodígio em destruir tradições com sua produção de diásporas. Tem sido efetivo em desterritorializar as pessoas, tirá-las do seu lugar de nascimento e jogá-las para onde é mais adequado à reprodução do capital. Isso serve para o executivo que faz milhões de dólares em bônus, mas para tanto realiza trocas múltiplas de residência de e para qualquer parte do mundo dentro de períodos curtos, assim como para o pobre que foge da fome em direção a algum grande centro urbano por não ter terra para produzir sua vida ou emprego para retirar um salário suficiente.

A partir do século XX a construção do conhecimento popular ganhou uma mutabilidade inédita na história do homo sapiens por conta dessas dinâmicas diaspóricas em períodos incrivelmente curtos, de várias vezes em uma única geração. A tradição perdeu poder de formar a episteme popular para o rádio e a TV.

Mediações culturais e construção de consciência

Conhecimentos e consciência populares não são inferiores às formas pretensamente “superiores” que interpretam o popular como algo vulgar, menor, indigno. Porém, nas relações de produção das sociedades burguesas, foram esvaziadas de sentido pela aglutinação de pessoas nos centros urbanos, pela movimentação em fuga da fome nas áreas rurais, com a inserção do espaço nacional na experiência local alcançando com ondas eletromagnéticas até os mais distantes pontos de um país.

Inicialmente com o rádio e depois com a TV, o tempo-espaço da nação, assim como suas prioridades políticas de círculos inalcançáveis à pessoa “comum”, saíram dos centros de poder para qualquer lar que possuísse acesso à informação, jogada ao ar de forma aleatória, sem uma linha narrativa lógica. Foram introduzidos ao senso comum mesmo a milhares de quilômetros da casa, do trabalho, das festas que cada comunidade possuísse. Estes meios, longe de serem instrumentos de civilização, nasceram no seio de empresas que auferem lucros ao mesmo tempo que colocam a prioridade de transmissão na cultura burguesa.

Por ter prioridade numa determinada cultura, os meios de comunicação realizaram um longo processo que o sociólogo hispano-colombiano Jesús Martín-Barbero chama de “enculturação”, ou seja, justamente transformar o tempo-espaço nacional burguês em tempo-espaço universal. Por outro lado, para reproduzir capital centralizável e acumulável, necessita de audiência (consumidores de produtos e serviços), sendo assim os meios de comunicação sujeitos a atender demandas de interesse da cultura “popular”, dentro de uma dinâmica em que a enculturação da cultura popular é retroalimentada pelo consumo de conteúdo cultural de matriz burguesa, comoditizado e despolitizado.

Deste modo, a consciência política se faz apoliticamente, com a construção de senso comum a partir de valores e tradições apresentados nos meios de comunicação como “universais”. A engrenagem se fortalece quando tais meios entram nas salas de aula, nas conversas familiares dominicais, nas doutrinações de padres e pastores.

Melodrama, ficção e realidade

Este ambiente cultural constituído pela comunicação massiva resultou na formação histórica de uma linguagem própria, dentro da qual se molda o estilo de pensamento do espaço-tempo nacional universalizado.

O discurso comunicacional no sentido de atender objetivos culturais burgueses e econômicos capitalistas encontrou seu primeiro campo fértil no romance, com a indústria do livro pós-Gutemberg, e posteriormente com os jornais de publicismo político, como descreveu o historiador Peter Burke. Na segunda metade do século XIX, os donos de jornais ressignificaram os próprios meios para transformá-los essencialmente em negócios lucrativos. Os textos foram destituídos de autoria para aperfeiçoar o processo de produção de conteúdo no formato de notícia, uma estrutura vazia de interpretações que busca pragmaticamente as cinco informações básicas: 1) quem 2) fez o quê, 3) onde, 4) quando e 5) por quê?

O autor de jornal passou de produtor de conhecimento para jornalista transportador de informações. O contexto constrói assim o senso comum a partir de textos mais expostos, ocultado pelo belo nome “opinião pública”. A tendência passou a ser de informação como entretenimento, realidade que atribula, ficção que diverte. O entretenimento de alívio se consolidou com o “folhetim” do final dos 1800, uma história romanesca em fascículos periódicos, presentes em edições dos jornais, nos quais a ficção era conformada em episódios que continham tramas encerradas no mesmo número, mas sempre deixavam outras abertas para o próximo capítulo. Entretenimento e negócio lucrativo, cultura como indústria capitalista.

Tais folhetos valiam-se da linguagem do melodrama, em que a história se desenrolava entre vilões e heróis, em tristezas profundas e o regozijo pleno, cujo final feliz agraciava o espírito leitor. Esse melodrama se mostrou bastante eficiente no contexto de cada nação. O cinema nazista na Alemanha que estetizou a guerra prometendo a felicidade plena quando todo o planeta fosse subjugado pelo nacional-socialismo e limpo das raças impuras, a indústria do cinema de Holywood que prometia as maravilhas do estilo de vida americano para todos os povos não civilizados dentro ou fora do território estadunidense, a novela latino-americana que prometia o alívio ao sofrimento pelo amor final e sem obstáculos entre um herói e uma moça frágil, ou com seu noticiário que mostrava o grande líder populista (Vargas, Perón etc.) na defesa do povo indefeso dos males do mundo não civilizado.

A ficção trata de formar aspirações, mas é no conteúdo não fictício que tais anseios de felicidade e fuga do sofrimento ganharam possibilidades reais a partir dos dois eixos que fundamentam o melodrama, a dor e o prazer, o medo (lembrando Renato Russo, toda dor vem do desejo de não sentirmos dor) e o regozijo pleno. O noticiário deixou o publicismo político com sua necessária reflexão para trazer o pavor de um mundo mal, as possibilidades de catástrofe econômica, da política dos poderosos, os tiros e as facadas que todos podem levar de um marginal qualquer ao sair de casa. O amor é um estranho no mundo do jornalismo. A publicidade veio trazer o regozijo pleno com o consumo dos produtos dos parceiros anunciantes. A infelicidade não lhe pertence.

Uns vendem anúncios, outros aumentam parcelas de mercado, os demais se protegem do mundo mal consumindo dentro da clausura do próprio lar. Como disse certa vez o escritor moçambicano Mia Couto, no mundo há mais medo do que coisas más dignas de serem temidas. O medo é o maior pedagogo destes tempos de comunicação massiva. Os meios de comunicação que medeiam a cultura do tempo-espaço nacional são a sua sala de aula.

Esta tem sido a fórmula em tempos de “estabilidade política”, ou seja, quando as condições de governo do Estado nacional atendem às aspirações das diversas frações de burguesia, incluindo a burguesia da comunicação. Em tempos de “instabilidades”, pessoas e grupos adversário viram vilões e os aliados, heróis. Incontáveis líderes populistas foram levantados e derrubados por forças políticas apoiadas pela burguesia comunicacional em todo o mundo depois da expansão do rádio e da TV. Quando se retiram os meios das grandes empresas do setor automaticamente se fala em ditadura, liberdade de imprensa e autocracia de empresa se confundem.

A imprensa, numa democracia burguesa, seja liberal ou de direito, não tem partido nem ideal, tem classe e interesses de classe.

A novela do presidente, um herói morto antes do triunfo final

A dinâmica de melodramatizar a política foi privatizada no Brasil durante a ditadura de 1964-1985. A comunicação televisiva foi construída em torno das Organizações Globo, sendo uma empresa privada, de interesse privado, lidando com a formação de senso comum em um público nacional, utilizando estrutura governamental de telecomunicações.

A campanha propagandística iniciada em 1984 para pressionar os parlamentares do colégio eleitoral a escolherem Tancredo Neves como presidente do Brasil, não o governista Paulo Maluf, foi um grande exemplo de que a dinâmica não é de manipulação, mas de construção e desconstrução de heróis

Até aquele momento, auxiliado pelos meios de comunicação de propriedade burguesa, Maluf tinha a imagem de político jovem, trabalhador e eficiente administrador público. Foi acolhido até pela população pobre das periferias de São Paulo como um grande governante a despeito de privilegiar dinâmicas de exclusão social, econômica e territorial quando foi governador e prefeito biônico (lembre-se, política despolitizada, poder oligarquizado, povo tratado como massa incapaz). Este diagnóstico era feito até pelo chefe da equipe de comunicação da campanha de Tancredo Neves, o publicitário Mauro Sales.

Durante os últimos meses de 1984, Maluf foi apresentado por parte dos jornais e telejornais como um corrupto que traria o mal para o Brasil, que jogaria o país em tempos sombrios (estávamos ao cabo de uma ditadura e os tempos ruins foram apresentados como vindouros, não como passados). Para tanto, o grande herói nacional era um político pouco conhecido da maioria da população. Ele traria a democracia, mais um daqueles conceitos universais que não são discutidos, apenas jogados nas ondas do rádio e da TV.

Na publicidade da campanha de Maluf se mostrava o candidato do Partido Democrata Social (PDS, também do presidente da República) como a esperança de desenvolvimento. Como slogan “Brasil, Esperança, Maluf”, tentou-se usar a imagem de jovem e competente administrador para convencer a “opinião pública” de que Maluf construiria um país mais justo e mais moderno, com desenvolvimento econômico e melhor distribuição de riqueza, algo que a oposição apontava como deficiência do governo do presidente Figueiredo. Na propaganda de Tancredo Neves, do Partido da Mobilização Democrática Brasileira (PMDB), cujo candidato a vice-presidente era José Sarney, presidente do PDS de Maluf e Figueiredo, aproveitou-se o slogan da campanha pelas eleições presidenciais diretas (proposta contra a qual Sarney se posicionou), com a adaptação simples do lema “Diretas Já” por “Tancredo Já”. Este homem, presente nos círculos de poder desde a década de 1950 e que seria a salvação democrática, teve uma campanha construída em torno de elementos do civismo, o Hino Nacional, as cores da bandeira, a defesa da unidade nacional e da grandeza do país a qualquer custo, mesmo que para tanto fossem necessários sacrifícios de parcelas da população, ideário amplamente difundido pelos governos da ditadura que Maluf representava. Está acompanhando? Recomendo que leia este parágrafo novamente antes de continuar. Se necessário desenhe.

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O herói Tancredo, da oposição, foi eleito prometendo mudar os centros de poder sem mudanças estruturais. Mas era herói. Maluf prometeu mudanças estruturais sem mudar os centros de poder, e era o vilão. Não venceu o melhor nem o pior, o mais ou menos adequado para o povo. Venceu o mais querido pela “opinião pública”, pelo congresso, pelas aspirações das frações de burguesia que desejavam um Estado menos centralizador, incluindo a fração comunicacional da burguesia.

A morte de Tancredo Neves antes da posse foi tratada como uma perda irreparável. A perda do herói nacional. Pessoas que não tinham ideia do seu histórico dentro da política nacional choravam como se fosse membro da família. Veja no vídeo abaixo como a reportagem do Jornal Nacional se assemelha a um capítulo triste de novela. Repare especialmente no encerramento com o “civismo” do hino nacional interpretado na simbólica voz melodramática de Fafá de Belém. Acredite, este episódio em que as pessoas sofrem gradativamente a falência dos órgãos do presidente como se elas estivessem no leito do hospital é uma matéria de um telejornal, assistido naquela noite por mais de 60% da população brasileira.

O poder de condução do processo de construção de heróis e vilões, das tragédias e das alegrias nacionais, deitou-se no colo do monopólio comunicacional privado, sob domínio de uma família (Marinho) que acolhe sob sua sombra outras seis ou sete em todo território nacional. A lista de heróis e vilões desde então é imensa. Fernando Collor (teve as duas funções) foi eleito presidente como obra de marketing eleitoral fundamentado no medo do comunismo e na felicidade da juventude, Lula e Brizola como vilões comunistas, Itamar Franco o herói contra a corrupção do vilão traidor Collor, FHC foi o Pai do Plano Real (a bem da verdade, o Plano é de Rubens Ricúpero), entre tantos outros fora da política, como Ayrton Senna (cuja morte comoveu tanto quanto a de Tancredo Neves), Ronaldo Nazário da convulsão ao título no Japão, Neymar Jr., Dunga, Alexandre Nardoni, Suzane von Richtofen, Marcola, Capitão Nascimento, Odete Roitman, Juca Pirama, Mezenga e Berdinazi, Carminha, Nazaré, Félix, Joaquim Barbosa como Batman da corte, o “invasor” João Pedro Stédile, os sete gols da Alemanha em Belo Horizonte, o Corinthians do rebaixamento ao título mundial, a queda do avião de Eduardo Campos que criou o lema “Não vamos desistir do Brasil”…

Mas que absurdo misturar personagens fictícios, entidades e pessoas reais!

Por que isso não ocorreria? Afinal, o telejornal local e o Jornal Nacional são encravados entre duas novelas, trazem as notícias em blocos que se encerram em si e outras que dependem do próximo capítulo. O que é realidade ou ficção na recepção da esmagadora e absoluta maioria despolitizada da população se o estilo de pensar, a forma de construir o senso comum, é o melodrama?

Tecnologia e recepção

As mudanças na forma de perceber o mundo estão propícias atualmente a uma transformação profunda, porém lenta. A internet, a despeito de ter seu início conteudístico como cópia das formas de produção cultural e recepção desses produtos vinda das mídias analógicas (impresso, rádio e TV), aumentou a possibilidade publicação por parte do “popular”, afetando estruturas da indústria cultural como a fonografia e o cinema.

O empoderamento comunicacional está tramitando da burguesia que produz conteúdo para a burguesia que controla os canais e ambientes de telecomunicações. Este é tema para outro texto. Porém, é significativo Dilma Rousseff, a “vilã” que apoia corrupção, ter vencido as eleições de 2014 contra o herói comunicacional Aécio Neves, neto do homem que acabou com a ditadura no Brasil. Há de se ressaltar, mesmo neste evento, que o medo de Aécio foi maior do que o medo de Dilma (dor e prazer como orientação do voto), porém graças às redes digitais o debate político foi ressuscitado, questionando o marketing político. A quebra do poder total do melodrama se deu na força das militâncias de rua e de internet. Em 1989, sem internet, Collor, um produto de marketing inventado pelos Marinho, venceu Lula, um líder político com ampla base e que conseguiu aglutinar no segundo turno apoios de Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Franco Motoro, Mário Covas, Roberto Freire e Luiz Carlos Prestes. Em 2014 poderia ter se repetido com Aécio.

Ainda assim, com todo o choque nas formas de recepção que a internet tem trazido (também tema para outro texto), há formas de transformar 60 mil professores manifestantes contra salários baixos e condições de trabalho/carreira precárias em vagabundos que estão obstruindo a Avenida Paulista, prejudicando o trânsito. Ao mesmo tempo, 210 mil pessoas pedindo medidas ilegais, inconstitucionais e até uma nova ditadura são convencidos de que foram a uma festa da democracia.

As construções mentais maniqueístas não precisam de lastro na realidade se dependerem da política realizada como melodrama. As próprias pessoas assumem o seu papel de personagem nessa grande novela que é a política despolitizada difundindo a ficção, mobilizando, a favor de seus heróis e contra os vilões (pouco importa se é Dilma ou Carminha, Lula ou Félix), a seus amigos e familiares. Boa parte que por trabalharem 45 a 60 horas semanais não realizam reflexões sofisticadas, partem de elaborações melodramáticas sem pé nem cabeça.

Algumas pessoas se assustam com o que veem em redes sociais sem terem jamais se assustado com a TV. Estas formas de perceber o mundo vindas do senso comum não nasceram com a internet. Na realidade estão se expondo graças a essa relativamente nova tecnologia comunicacional. Se a internet ajudará a quebrar essa dinâmica de produção de ignorância com efetivo resultado político está no campo da futurologia ou do desejo. O que se pode afirmar com segurança é: a tal “manipulação” é uma explicação imprecisa e excessivamente fácil que nos leva na direção do regozijo pleno, do prazer intelectual, exatamente o sentido oposto da realidade que nos amedronta com a ameaça de provocar muitas dores.

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