Um possível controle estrangeiro de boa parte da logística nacional

Por Daniel M. Huertas

Geógrafo e professor adjunto da Unifesp, campus Osasco

Há pouco mais de um mês uma notícia de grande impacto para o sistema logístico mundial pode surtir efeitos indesejáveis no Brasil. A estadunidense FedEx anunciou a compra da holandesa TNT Express por € 4,4 bilhões (US$ 4,8 bilhões). O negócio ainda depende da aprovação de órgãos de regulação internacionais para ser concretizado, mas isso não invalida uma análise preliminar do que poderia acontecer com a logística vigente no território nacional.

É de conhecimento geral o fato de que a logística operada no Brasil é majoritariamente rodoviária – os números oficiais têm oscilado, nos últimos anos, entre 55% e 60% do total da carga transportada. Este dado, entretanto, precisa ser avaliado à luz da participação destas duas empresas no país. Vejamos. Em 1973, quando o transporte rodoviário de carga (TRC) atravessava um momento de grande crescimento e início de uma modernização empresarial, a TNT, então um grupo australiano, entrou no Brasil por meio da compra da transportadora gaúcha Transpampa.

A agressiva inserção da TNT no mercado brasileiro, por meio de novas aquisições de empresas transportadoras, assustou o setor, que a acusou da prática de dumping em relação aos fretes praticados. As gigantes UPS e FedEx também já haviam aberto escritórios no país. O fenômeno gerou um debate em 1975 que culminou com a promulgação da lei 6.813/80, que restringia a entrada do capital internacional no transporte rodoviário de carga. Naquela ocasião, a iniciativa partiu do IV Congresso Nacional da Associação Nacional do Transporte de Carga (NTC, hoje NTC&Logística), que indicou uma união da classe empresarial contra a entrada indiscriminada de investimentos estrangeiros. “Ficou claro que, se não houvesse uma reação, as nossas frágeis empresas sucumbiriam em pouco tempo. Era preciso criar uma barreira legal (…), festejadíssima à época”, lembrou o ex-presidente da NTC&Logística, Geraldo Vianna (in Braspress News, publicação do Grupo H&P, n.15, out-dez.2010, p.33), encarregado da redação da minuta de um projeto de lei e sua justificativa.

A situação atual é muito diferente, pois a lei 11.442/07, que procura regulamentar o setor, revogou a anterior, abrindo espaço para a maximização do capital internacional no TRC. Percebe-se, entretanto, que a inserção ocorre de forma planejada e integrada, a fim de se estabelecer sinergias com outros modais. O mercado nacional tornou-se atraente, com foco para a sua interligação com o mundo.

O território em transição aponta, então, para um aspecto de ampla inter-relação com o período atual, do turbocapitalismo globalizado: o avanço das multinacionais, que tornam o espaço cada vez mais racional, “como um mecanismo regulado, onde cada peça convoca as demais a se pôr em movimento, a partir de um comando centralizado”, como bem disse o geógrafo Milton Santos. Portadoras de condições técnicas e financeiras privilegiadas, e ansiosas em incrementar as redes igualmente privilegiadas que configuram pelo planeta, estas grandes empresas proporcionam uma leitura reticular do território brasileiro, buscando vantagens competitivas em pontos e zonas que melhor lhes servem.

A atuação de operadores logísticos estrangeiros no Brasil concentra-se nos modais aéreo e marítimo, mas é crescente um movimento de aproximação direta de algumas empresas com o universo rodoviário nacional. O caso mais emblemático, que causou certo furor no meio logístico, foi a expansão maciça da TNT Express com a aquisição da gaúcha Expresso Mercúrio, em 2007, e da paulista Expresso Araçatuba, em 2009 (R$ 156,4 milhões), como meio de alavancar a sua estratégia de “foco em redes”, na qual empreendeu a interligação sul-americana em conjunto com a compra da chilena LIT Cargo.

A meta da multinacional foi praticamente abarcar a totalidade do território nacional em sistema de complementaridade, criando sinergias entre a forte presença da Mercúrio nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste e a contrapartida da Araçatuba no Norte e Centro-Oeste. A megaestrutura comporta cerca de 5 mil cidades atendidas por 110 filiais situadas em todas as Unidades da Federação, com 8 mil funcionários, 2,5 mil veículos próprios e 1,5 mil veículos terceirizados. “Temos capilaridade (…) e chegamos aonde muitos concorrentes não conseguem ir”, destacou Ricardo Gelain, diretor de vendas e marketing da TNT Brasil (in revista Valor Setorial – Logística, abr. 2011, p.84).

Estratégia semelhante a da TNT para alavancar os seus negócios no país foi a compra da pernambucana Rapidão Cometa, um dos maiores operadores logísticos em carga fracionada, pela FedEx, negócio anunciado em maio de 2012 sem divulgação de valores. A propaganda institucional do negócio diz que a “família cresceu”. “Rapidão Cometa e FedEx uniram forças para criar uma empresa ainda melhor. Força local, alcance global.”

Desde 2001 que a Rapidão já vinha operando em parceria comercial e operacional com a FedEx, que agora aposta no crescimento de mercados domésticos de peso, como já havia feito recentemente na China, Índia, México e França. “(…) esta aquisição é um atestado do comprometimento que temos em expandir a presença da FedEx nos mercados que precisam de mais acesso global”, justificou Michael L. Ducker, chefe da Gerência de Operação Internacional da multinacional (in <http://www.tecnologistica.com.br/negocios/fedex-conclui-aquisicao-do-rapidao-cometa/> Acesso em: 20 ago. 2012). Para alavancar as suas operações intermodais no Brasil, em outubro de 2012 a FedEx ainda instituiu uma parceria com a catarinense Portlink Logística que oferece aos clientes um portfólio completo de soluções intermodais de transporte que inclui frete aéreo e marítimo, desembaraço de carga e outros serviços agregados.

Ocorre que a compra da TNT pela FedEx, se de fato concretizada pelos órgãos reguladores internacionais, criará um gigante logístico global que, no caso específico do Brasil, pode perfeitamente criar condições para dominar boa parte da logística brasileira a médio prazo. A TNT, por conta da supracitada aquisição das empresas Expresso Mercúrio e Expresso Araçatuba, já detinha excelente inserção territorial nas regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

A Rapidão Cometa, fundada em 1942 no Recife, domina a logística da Região Nordeste há muito tempo, e gradativamente vem se tornando um operador logístico de alcance nacional, com escala de atuação organizada por uma rede comandada por um hub nacional (São Paulo), 6 hubs regionais (Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, Belém, Feira de Santana/BA e Recife), 10 terminais intermediários (Porto Alegre, Blumenau/SC, Campinas, Matias Barbosa/MG, Rio de Janeiro, Vitória, Brasília, Manaus, Salvador e Fortaleza) e outros 217 fixos (filiais e pontos de operação) espalhados por todos os Estados, com serviços específicos para rotas regionais e inter-regionais (normal e expresso).

Cabe ressaltar, ainda, que tanto TNT quanto Rapidão possuem filiais de peso e altamente estratégicas na Região Sudeste, que concentra os principais mercados produtores e consumidores do país. Levando-se em conta que a gigante estadunidense detém sinergia intermodal global – a empresa ostenta linhas aéreas servidas por aeronaves próprias, entre outras “competências logísticas” –, não é exagero afirmar que possa controlar boa parte da logística nacional, determinando as subcontratações de empresas nacionais e caminhoneiros autônomos e interferindo diretamente na formação do valor do frete. Mais uma vez o território nacional tem a sua soberania ameaçada. Resta saber como o empresariado nacional do TRC e os órgãos públicos competentes lidarão com o tema.

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