Resenha: “O Presidente Negro”, Monteiro Lobato

capa presidente negro

A Onda Verde/O Presidente Negro, Monteiro Lobato. Editora Brasiliense – “Obras Completas de Monteiro Lobato” – 1a. Série – Volume 5, São Paulo, 1964, 330 páginas. Lançado originalmente em 1926.

Antes que paire alguma dúvida ao leitor, a obra a ser analisada é O Presidente Negro. É que a edição em que este romance foi publicado também inclui outra obra, talvez a primeira do autor (de 1920), chamada de A Onda Verde, um conjunto de artigos e crônicas originalmente publicadas nos jornais da época.

O Presidente Negro ou O Choque das Raças (aliás, este é o título original da obra), apareceu em 1926. Pode-se dizer que é a obra mais polêmica deste celebrado autor de histórias infantis e uma das mais controversas de toda a literatura brasileira.

Lobato o escreveu rapidamente em apenas três semanas para “o rodapé d’A Manhã de Mário Rodrigues” (página 125), antes de sua partida para os Estados Unidos, onde residiria pelos próximos cinco anos na condição de adido comercial da embaixada brasileira. Ao que parece o autor tinha o objetivo de tentar publicar a obra nos Estados Unidos, pensando tratar-se de uma obra fundamental, que interferisse no debate deste país com relação ao seu problema étnico. Ficou decepcionado, pois a obra foi rejeitada e nem chegou a ser publicada.

Talvez existam duas razões principais para isso. Primeiro é que a obra é assumidamente partidária de uma posição, racista e pró-brancos. E é exposta de forma tão explícita que só poderia ser absorvida positivamente pelos francamente racistas, o que era uma minoria naquele país. Segundo, porque é uma obra literariamente pobre que, conforme o próprio autor admite, foi escrita às pressas.

Ler este livro com alguma isenção é difícil, pois a priori o sentimento, a expectativa já é negativa. E o motivo é óbvio: a clara proposta racista da obra. A este aspecto se acrescenta também certa imagem positiva construída pela escola e pela mídia, de um autor de histórias para crianças, que forjou toda uma geração para se interessar na prática da leitura, por meio do clássico inegável que são as aventuras de O Sítio do Pica-pau Amarelo. Além disso, Lobato pode ser associado também como um nacionalista importante dos anos 1940 e 1950, um dos principais batalhadores para a criação da Petrobrás. Desta forma não há como negar uma espécie de sentimento ambíguo, desconfortável, em confrontar boas recordações infantis e o apoio que deu a uma visão de desenvolvimento estratégico ao país, com uma obra de perfil tão agressivo e repugnante.

O romance tem início com o encontro de Ayrton Lobo, um vendedor ambulante com o misterioso Dr. Benson, após o primeiro sofrer um acidente de carro. Depois dos cuidados recebidos o vendedor pede para ficar com o seu benfeitor em sua mansão, prestando-lhe quaisquer tipos de serviços. E o Dr. Benson, resolve tomá-lo como uma espécie de confidente de suas pesquisas científicas, que ele oculta do resto da humanidade.

Vê-se por este começo que a estrutura da história tem um plano bem conhecido: pessoa do povo encontra um cientista recluso em uma casa afastada, onde realiza experiências mirabolantes que podem mudar o mundo. E ainda lhe apresenta sua linda filha, claro uma loura escultural com olhos azuis. Um tremendo clichê, ainda complementado por nomes anglófonos, Dr. Benson e sua Miss Jane.

Os estudos do cientista permitem que ele invente o porviroscópio, um aparelho que visualiza por meio de uma tela o passado e o futuro. É selecionado um dado ano e a máquina o mostra com áudio e vídeo. Uma espécie de máquina do tempo no qual não se vai fisicamente até outra era, mas se presencia em termos audiovisuais.

Ainda na primeira parte da obra o cientista morre. Como último ato ele destrói o porviroscópio, assim como os papéis que continham a explicação de como construí-lo. Uma opção estranha, pois para que tantos estudos se ele não o compartilha com a sociedade? Deixa dois herdeiros, a filha e Ayrton, pessoas de sua confiança que poderiam continuar o trabalho. Mas isso é esperar muito. Além das situações clichês já comentadas, os personagens são estereotipados, quase caricaturas de modelos. No caso do Dr. Benson, na figura de um extremado altruísta que para o bem da humanidade esconde suas ‘terríveis’ descobertas…

Contudo o cerne do romance ainda não foi exposto que é o tema do choque das raças na sociedade americana. A introdução do tema se faz com o depoimento de Miss Jane a Ayrton, ao relatar que viu por meio do porviroscópio o que ocorreria no ano de 2228, quando um negro venceria, pela primeira vez, a disputa pela Presidência dos Estados Unidos. O pretexto é que Ayrton escreva um romance sobre o relato e possa com isso, ser uma espécie de visionário do que virá. Desta maneira Ayrton visita a solitária donzela todos os domingos em sua mansão e esta conta a ele o que se sucederá nos Estados Unidos no século XXIII.

Sem querer justificar a opção do autor é preciso lembrar que ele seguia a mentalidade de parte da elite cultural brasileira e estrangeira entre o fim do século XIX e a primeira metade do XX, que defendia a superioridade racial de uma dada etnia sobre outra, uma ideia que tinha certa base ‘científica’, através de uma interpretação politicamente conveniente de estudos antropológicos evolucionistas a serviço do imperialismo dos brancos europeus sobre os povos da África e da Ásia, além da doutrina filosófica francesa do positivismo, que via no progresso técnico a chave para o desenvolvimento humano. E este só poderia ocorrer nas terras temperadas, mais afeitas ao trabalho e a uma visão de mundo mais ascética, que seria habitada, não por coincidência por anglos, germânicos, nórdicos e eslavos, todos brancos. Daí para uma corrente equivocada do evolucionismo – o darwinismo social – foi um pequeno passo, que por meio do eugenismo, tentou na prática em alguns países ‘embranquecer’ populações ‘mestiças’, ‘negras’ ou ‘amarelas’ ou até mesmo eliminá-las, simplesmente. Sem meias palavras, Lobato defendia também a destruição de deficientes físicos e mentais. Ora, superioridade branca e genocídio foram práticas executadas em escala pelo III Reich de Adolf Hitler.

Como se ainda não fosse o suficiente Lobato também é misógino, pois na sua América utópica do futuro, há também uma clivagem grave entre homens e mulheres da etnia branca, separados por dois partidos políticos que os representam.

Pois na eleição presidencial americana de 2228, os dois partidos sexistas lutam pelo apoio eleitoral do líder dos negros Jim Roy. Mas às vésperas do pleito ele decide concorrer ao cargo, traindo o apoio que prometera secretamente aos dois partidos. Assim, Jim Roy torna-se o primeiro presidente negro da história americana. Tal fato provoca uma imediata aliança entre os dois partidos da etnia branca, com as mulheres reconhecendo o seu erro em não apoiar os homens brancos. A culpa é das mulheres! Como se elas é que tivessem a obrigação de apoiar o homem.

Talvez nem fosse preciso chamar a atenção para isso, mas é incrível como as divisões étnicas e sexuais são perfeitamente homogêneas entre si. Todos os negros votam no negro – e entre estes não há divisões sexistas, por quê? Assim como as mulheres e os homens brancos seguem os seus respectivos líderes. Nesse mundo as pessoas não exprimem sua individualidade e interesses, agem apenas pelas orientações de seus líderes étnicos e sexuais. Não creio que Lobato fosse tosco o suficiente para endossar tal situação, como se as pessoas agissem como num rebanho. É possível que sua intenção fosse sublinhar como as diferenças étnicas e sexuais poderiam levar a uma verdadeira cizânia social e política no futuro. Uma espécie de caricatura proposital que fizesse os americanos de sua época se alertar contra os ‘perigos’ de se estender direitos a grupos étnicos e sexualmente ‘inferiores’, como os negros e as mulheres.

Como resultado da reaproximação das mulheres e homens brancos, chega-se à ‘solução branca’. Em vez de uma guerra civil ou a expulsão dos negros para a Amazônia – uma das possibilidades esdrúxulas, entre tantas, que Lobato expõe –, a tal ‘solução’ é a aplicação de um tal raio Omega, que alisa os cabelos dos negros. Esta medida, ao lado de um processo já em andamento de clareamento da pele, ‘embranquece’ os negros, tornando-os menos insuportáveis para os brancos. O mais inverossímil é que os próprios negros se revelam racistas – negros com almas brancas –, pois aderem com entusiasmo à aplicação do raio.

Porém, a tal solução vai mais longe e termina, como um efeito colateral não planejado mas muito festejado, a provocar a esterilização dos negros, ocasionando, assim a realização da utopia ariana na América. Certamente os nazistas e os integrantes da Ku Klux Klan aplaudiriam o desfecho da obra.

Este livro é polêmico pelo tema. Mas é chocante pela maneira como o autor o aborda. De uma forma franca e extremamente inverossímil, dando a impressão que tanto os personagens, como os próprios leitores são uns débeis-mentais, tal o grau de exagero e absurdo das situações.

Em pleno século XXI, quando os Estados Unidos têm em Barack Obama um presidente negro desde 2009, uma obra como esta só pode ter valor para aqueles que estudam a tal tendência eugênica da época e sua influência no meio cultural ou mesmo para um pesquisador da obra do próprio Lobato. Pois como ficção científica e, mais importante, como uma obra que possa trazer alguma utilidade literária ou social ao nosso tempo, a melhor coisa a fazer é simplesmente esquecê-la. Uma obra que envergonha por defender valores absolutamente contrários à boa convivência civilizatória e humana.

– Marcello Simão Branco é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, e professor adjunto de “Compreensão da Realidade Brasileira”, pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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