O sonho intenso dos brasileiros cabe neste mundo?

Murilo Leal

Um sonho intenso é o título do mais recente documentário do diretor José Mariani, lançado em 2014. Mariani, que é também professor de Cinema e Documentário da PUC do Rio de Janeiro, já dirigira Cientistas brasileiros, sobre os físicos José Leite Lopes e Cesar Lattes e O longo amanhecer, cinebiografia do economista Celso Furtado.

Um Sonho intenso, com 1h40m de duração, foi apresentado no auditório da EPPEN em 14 de julho de 2014, com a presença do Diretor, e trata da construção, a partir do primeiro governo Vargas, do projeto de desenvolvimento nacional baseado na ampliação do mercado interno, na industrialização e na incorporação das massas trabalhadoras, discutindo seus impasses, contradições e estado atual. Coloca-se, assim, como parte do programa cinematográfico do autor, que podemos vislumbrar por sua afirmação: “Se Glauber Rocha dizia que o cinema não exclui a poesia, eu acrescento: o cinema não exclui a ciência.” De fato, os três documentários de Mariani apresentam e debatem ideias do campo da ciência, mas têm em comum, além disso, o interesse por cientistas comprometidos com um projeto de desenvolvimento nacional.

A trama do filme é composta pelas falas de economistas, sociólogos, jornalistas e historiadores que interpretam a história econômica e social do Brasil a partir de 1930, com visões que se compõem e às vezes se contradizem, dentro de um campo de esquerda e centro-esquerda, como declarou o próprio Mariani ao jornal Visão Oeste, de Osasco. É constituída, ainda, pelas imagens selecionadas e pela montagem, em que se insinua a leitura do próprio Mariani.

O diretor, em suma, colheu depoimentos de Adalberto Cardoso, Carlos Lessa, Celso Amorim, Chico de Oliveira, João Manuel Cardoso de Melo, José Augusto Ribeiro, José Murilo de Carvalho, Lena Lavinas, Luiz Gonzaga Belluzo, Maria da Conceição Tavares e Ricardo Bielchovski; selecionou e organizou trechos desses depoimentos em ordem temática e cronológica, indo da crise de 1929 até o segundo governo Lula, escolheu imagens que tanto ilustram as falas dos depoentes como falam por si mesmas e encomendou uma trilha sonora algo melancólica a Aluisio Didier. O resultado final é um balanço da construção e desconstrução de um projeto de Brasil, nostálgico, por um lado, do sonho que se perdeu, lúcido, ao mesmo tempo, na procura de respostas que expliquem o passado e abram futuros.

Uma possibilidade de resumir as proposições dos intérpretes é a que se segue. A década de 1930 herdou do pós Primeira Guerra o debate cultural do Modernismo, que rompera com a visão da civilização brasileira como caricatura de Portugal e convencera-se de que uma nova cultura estava nascendo e herdou também o complexo cafeeiro, controlado por capitais nacionais. A crise de 1929 liquidou com a dominação das oligarquias do café com leite e abriu espaço para a ascensão de novos gestores do Estado: Vargas e os tenentes. Estes, embora criando salvaguardas para a defesa do café, trouxeram o projeto de reorganização do Estado como fator da industrialização, como lembra Carlos Lessa. A burguesia industrial e as classes médias começaram, então, a pesar mais na estrutura social, permitindo uma industrialização a partir do mercado interno, na visão de Maria da Conceição Tavares. Este projeto, segundo Adalberto Cardoso, começou a “habitar o sonho e a expectativa dos trabalhadores”. O nacional-desenvolvimentismo seria comum aos governos Vargas e JK, na leitura de João Manuel Cardoso de Melo e Carlos Lessa, mas as economistas Maria da Conceição Tavares e Lena Lavinas fazem o contraponto: o 50 anos em 5 (slogan da campanha presidencial de JK) não era um projeto de sociedade, mas de industrialização acelerada, voltada para um mercado de consumo urbano de classe média, mantendo e reproduzindo o subdesenvolvimento rural, junto com o desenvolvimento. “O programa desenvolvimentista brasileiro foi uma modernização conservadora – ponto final, parágrafo!!” proclama, enfaticamente, Tavares. O ciclo se fecha com o golpe de 1964, uma reação dos militares às reformas de base defendidas pelo governo de João Goulart, qualificadas então como ameaça revolucionária à ordem, embora não fossem.

Com Costa e Silva, é retomada uma política desenvolvimentista que propicia o “milagre econômico” – crescimento de 11% ao ano de 1968 a 1973 – “milagre econômico perverso”, nas palavras do economista Ricardo Bielchovsky, já que baseado na concentração de renda. A crise internacional do petróleo, em 1973, ameaça o desenvolvimento e a estabilidade do regime militar, que nele se legitimava e, por isso, no governo Geisel agiganta-se o projeto desenvolvimentista autoritário, capitaneado pelas estatais, gerando a oposição da burguesia industrial. A redemocratização tem que lidar, na economia, com a hiperinflação e não se fala mais em planos de desenvolvimento. O Governo Collor “tira o Brasil da pauta”, segundo Carlos Lessa, movimento que prossegue nos governos FHC. A equipe de economistas de Fernando Henrique conseguiu debelar a inflação com câmbio valorizado, juros altos, privatizações, alinhamento com as diretrizes do “Consenso de Washington” e uma reforma monetária criativa. “O que nós fizemos foi nos curvarmos a esse vagalhão neoliberal”, sentencia José Manuel Cardoso de Melo.

Finalmente, os governos de Lula são vistos como momento de inclusão das classes populares por meio do crédito, do consumo, do aumento do emprego formal. O sociólogo Adalberto Cardoso acrescenta que verificou-se também a retomada de valores do projeto varguista, com a afirmação da “auto-estima do brasileiro” pela reconstrução de uma identidade baseada no trabalho e no emprego protegido. O filme, claro, termina com um debate em aberto, que cabe aos espectadores desenvolver. É uma obra para ser discutida e por isto foi lançada primeiramente em circuito universitário, acompanhada de palestras com o diretor e só depois se apresentou em circuito comercial. Encontramos posições otimistas, como a de Maria da Conceição Tavares, que afirma: “Eu acho que o sonho de Darcy [Ribeiro] está chegando, a gente já está se aproximando da ideia dele de ter um país desenvolvido, democrático, inter-racial”. Também encontramos visões, críticas, como a de Chico de Oliveira: “O negócio deles [dos governantes petistas] é fortalecer o capitalismo brasileiro e, portanto, as grandes empresas (…) Eles são nacionalistas do grande empresariado”. Mas talvez a conclusão mais avançada seja a de Lena Lavinas: “O Brasil é um país muito desigual. O Brasil nunca conseguiu ter um grande movimento social de caráter nacional que conseguisse unir uma plataforma social, que conseguisse levar realmente a um novo compromisso de classe. Mas, sem dúvida, talvez o que nos faltou tenha sido a radicalidade de uma ruptura que tenha levado à necessidade de um compromisso histórico para uma nova sociedade”.

Um sonho intenso se sustenta mais pela força das ideias do que pela força das imagens. Estas, o mais das vezes, ilustram as falas, em muitos momentos com informações visuais importantes, como cenas da população na Praça dos Três Poderes na posse de Jânio Quadros ou dos tanques na rua no golpe de 1964. Com frequência, porém, as imagens não enriquecem as ideias debatidas, abusando de cenas da posse de presidentes da República, em narrativa visual presa a uma visão tradicional da história política e de imagens de manchetes de jornais anunciando os fatos mencionados pelos analistas em suas falas. Em alguns momentos, porém, as imagens adquirem força própria e dialogam com o texto, como na passagem em que o diagnóstico de que o projeto de desenvolvimento foi uma modernização conservadora é acompanhado por uma imagem aérea contrastando a favela de Paraisópolis com os prédios de luxo do Brooklin.

Principalmente, nos chama a atenção o foco no quadro Operários, de Tarsila do Amaral, que abre o filme, apresentado a uma distância que nos permite observá-lo em sua inteireza e é retomado no final do filme, agora com closes nos  rostos de alguns dos operários e operárias. Em seguida, ao fundo dos créditos finais, é exibido trecho de filme registrando a saída de operários da fábrica Belgo Mineira. Mariani parece querer dizer que o projeto de construção de uma nação desenvolvida e democrática só poder ter sucesso se os operários como classe e como indivíduos tiverem um papel decisivo nesta construção. Ou seja, o projeto nacional só terá sucesso se for, também, um projeto de inclusão e de mudança social. É o que aparece na epígrafe de Celso Furtado, a quem o filme é dedicado: “A história nos demonstra que o avanço social dos países que lideram esse processo não foi fruto de uma evolução automática e inercial, mas de pressões políticas da população. É só quando prevalecem forças que lutam pela efetiva melhora das condições de vida da população que o crescimento se transforma em desenvolvimento”. Cabe considerar, porém, que o Brasil do sonho intenso do Hino Nacional foi realizado. Se o Estado nacional edificou-se sobre a desigualdade extrema é porque este era o projeto social das classes que dirigiram esta construção. Priorizar o projeto social dos de baixo pode não ser compatível com o projeto nacional dos de cima. Os rostos dos operários e operárias nunca serão reconhecidos na galeria dos construtores do Estado nacional porque o Brasil não é dos brasileiros. O Brasil dos deserdados talvez não seja o Brasil do Hino oficial, mas o de outro Hino Nacional, o que Drummond publicou no livro Brejo das Almas, em 1934, e que assim se encerra:

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!

Nosso Brasil é no outro mundo, Este não

É o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão

Os brasileiros?

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