O anticomunismo e a origem do antipetismo no Brasil

Antes mesmo de existirem comunistas neste lado do Atlântico, havia o anticomunismo. Data de antes das imigrações europeias que trouxeram os operários e lavradores brancos para o Brasil. Hoje ele se mistura em diversas nuances, como o “antibolivarianismo” e a vertente mais forte, que é o antipetismo de direita (o de esquerda é diferente, fica para outra hora).

As oligarquias brasileiras já temiam o trabalhador negro desde que tomou conhecimento da Revolução Haitiana (1791-1804), onde os negros quiseram liberalismo, tal qual o francês, também para a colônia centro-americana. Executaram os escravistas brancos e construíram uma república negra. Foram violentamente reprimidos pela república francesa. Desde aquela época era evidente que uma democracia burguesa num país central depende da espoliação de populações e territórios distantes.

As oligarquias brasilianas tinham um medo da população trabalhadora, mas um medo ainda sem nome. Encontraram em meados do século XIX, quando a Revolução Haitiana já era apenas lembrança. Como “fantasma” que rondava a Europa, tal qual descreveram Marx e Engels no Manifesto, o comunismo é de meados do século XIX, da década de 1840, quando os movimentos proletários europeus se organizavam contra a burguesia do velho mundo. Chegou a uma revolução vencida e reprimida militarmente, com execução de milhares de trabalhadores em todo aquele continente.

No Brasil, esse era o período de ascensão da economia cafeeira, cuja matriz de força de trabalho era escrava. Até mesmo o liberalismo burguês, defensor da livre concorrência não monopolista, era revolucionário demais para os padrões brasileiros, para uma classe dominante oligarca, latifundiária e que, como descreveu Florestan Fernandes, sempre manteve traços de sociopatia e dependência estrutural das classes dominantes do velho mundo. Porém, ao contrário da Revolução Haitiana, em que se defendia o liberalismo e a democracia burguesa para não burgueses, o movimento comunista europeu tinha um inimigo com um objetivo estranho ao discurso de construção de um estado-nacional com classes proprietárias dominantes.

Aqui, mesmo não existindo movimento comunista, esse “mal” convergiu para a criação de um inimigo comum a liberais, conservadores, monarquistas, republicanos, funcionários públicos, pequenos proprietários etc. Por ser meramente discursivo, ainda era incompreensível aos escravos, a quem, devido às condições de vida, era possível entender a dicotomia homem livre-escravo, não burguesia-proletariado. Em seu livro “Da Monarquia à República”, Emília Viotti da Costa assim descreve debates em torno da abolição da escravatura nas décadas de 1860 e 1870:

“À medida que enfraqueciam as bases econômicas do sistema escravista, os argumentos antiescravistas ganhavam peso. Ninguém mais ousava fazer a defesa doutrinária da escravidão. Todos se diziam emancipadores, entretanto insistiam em frisar que a situação que vivia o escravo era superior à do jornaleiro europeu. Faziam questão de acentuar que, no Brasil, a escravidão era mais branda do que em outros países, que aqui os senhores eram benevolentes e que as relações entre senhores e escravos caracterizavam-se por um tom paternal. Chegavam a afirmar que os escravos tinham vivido felizes ate o momento em que as ideias subversivas divulgadas pelos abolicionistas criaram o descontentamento. Acusavam os abolicionistas de pintarem um quadro demasiado sombrio da escravidão. Em tese eram favoráveis à emancipação gradual, desde que fossem salvos os direitos de propriedade, isto e, indenizados os proprietários. Mas quando qualquer medida emancipadora era proposta faziam-lhe tremenda oposição. Invocavam o direito de propriedade, acusavam os abolicionistas de “comunistas”, de agitadores, que não tinham nada a perder e estavam pondo em risco a segurança publica e a riqueza nacional. Diziam que o movimento abolicionista não tinha raízes na opinião pública, era um movimento artificial promovido por um grupo de anarquizadores da ordem pública que pregavam doutrinas subversivas e ilegais ameaçando os mais graves interesses da nação, mantidos e criados à sombra protetora das leis do pais. Julgavam sempre prematura qualquer medida emancipadora que não fosse preparada por estudos prévios, estatísticas e reformas profundas, tais como a colonização, a construção de vias férreas e de canais”. – Argumentos escravistas e antiescravistas, 6a ed., ed. Unesp, pp. 331-332.

A abolição era atacada como uma pauta “comunista”, “anarquizadora”. Os interesses da “nação” (uma figura de linguagem para interesses oligárquicos), a segurança, o prejuízo para o país, o caráter brando do modo de vida autoritário foram repaginados na forma de anticomunismo durante o restante do século XIX, todo o XX (lembre-se, a ditadura foi ditabranda e matou pouco em relação às de outros países) e permeia esse início de XXI. As classes dominantes, proprietárias dos meios sociais de produção conquistados originariamente pela invasão e conquista militar sobre os povos que aqui já existiam (o discurso liberal e meritocrático não tem sentido fora da Europa a não ser como ideologia), repaginaram o medo do outro de várias formas.

No Estado Novo o inimigo era o comunismo que queria implantar uma ditadura no Brasil via golpe de estado, colocando a luta policial contra o comunismo como uma política de Estado. Na ditadura militar, eram agentes soviéticos infiltrados para corromper o povo e a juventude, justificando o anticomunismo como questão de segurança nacional. Depois da queda do muro de Berlim e a derrota da Revolução Russa, com extinção da União Soviética em 1991, o anticomunismo precisava de uma nova roupa. Uma década depois, os regimes de Cuba, Venezuela e Bolívia, absolutamente distintos entre si, serviram àqueles que ensaiaram o “antibolivarianismo” , mas não extrapolou os círculos recrudescidos de classe média pela falta de penetração do slogan, sem sair dos batidos “Vai pra Cuba” ou “Querem transformar o Brasil numa Venezuela”.

O discurso anticorrupção (outra repaginação de métodos golpistas para derrubar Vargas e Goulart) colou feito adesivo estrutural no combate ao Partido dos Trabalhadores de uma forma aparentemente irreversível a curto, talvez médio, prazo. No geral, há a certeza de que petismo é crime. Cada um vai descrever o que é esse crime e porque é pernicioso, mas o senso comum de um inimigo contra a legalidade, a segurança nacional, a economia, a ordem na nação e, o novo elemento, a gestão pública, está absolutamente consolidado. Uma parte significativamente menor da população, majoritariamente de classe média, ainda associa petismo a comunismo, porém é mais herança ideológica das ditaduras do século XX do que afinidade do medo vintage com o atual, igualmente convertido em ódio como prática política.

Se o antipetismo é impreciso não é um grande problema, pois o que importa é induzir uma massa populacional a tomar a essência (quem compõe todo o campo da esquerda, dentro ou fora do PT, comunista ou não, e a quem ele representa) pela aparência (um ente metafísico fictício, criminoso e terrível chamado “petismo”). Chega ao bizarro ponto em que qualquer discurso crítico ou que realize a tarefa da ciência (compreender a essência além da aparência) deva ser combatido, um ponto onde História, Filosofia e Ciências Sociais sejam coisa de petista.

O ódio irracional daí gerado pode ser e tem sido manobrado, em nome de projetos econômicos e políticos “austeros”, para promover reformas pelo alto, mantendo ou aumentando a exploração da população. É um discurso renovado da defesa da escravidão, logo, não poderia redundar em defesa de direitos humanos ou trabalhistas. Não importa quem é ou não petista (seja lá o que isso queira dizer nos discursos raivosos), vale odiar aquilo que não se compreende, interditar o debate, o diálogo e executar todo potencial autoritário eternamente em ação ou em latência na sociedade brasileira.

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