Revoluções frustradas: o antipetismo de esquerda

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Há duas semanas escrevi aqui sobre o antipetismo como resultado de uma transformação histórica do anticomunismo, presente no Brasil desde o século XIX. Porém, nos últimos 40 anos há um fenômeno de ódio ao Partido dos Trabalhadores vindo de correntes políticas que defendem as classes trabalhadoras e populares.

Assim como o anticomunismo nasceu antes da existência de comunistas no Brasil, o antipetismo de esquerda nasceu antes do próprio PT. Veio do ódio entre militantes decorrentes dos rachas no antigo Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura militar, a direção do PCB deliberou por resistir na arena institucional, tanto que, sem registro, boa parte dos seus quadros se filiou ao MDB, o partido da oposição permitida no sistema bipartidário. Alguns grupos deixaram o PCB e buscaram a luta armada, a mobilização de base, gerando  o PCdoB, o PCBR e várias correntes que tentavam se articular na guerrilha, sendo que em alguns casos até concorriam entre si.

As greves do final da década de 1970, bem como movimentos populares concentrados nas comunidades eclesiais de base, foram realizados sem uma articulação do PCB, que fora desde 1922 o grande partido da massa no Brasil. Por conta do abandono das bases durante a ditadura, as classes trabalhadoras e populares, com auxílio de intelectuais, correntes trotskistas (inimigas históricas do stalinismo que empederniu o PCB por muitos anos) e até ex-integrantes do PCB, pensaram em um novo partido, dissociado da burocracia do “partidão”.

No PCB, onde se defendia disputar a hegemonia dentro do MDB como uma frente para derrotar a ditadura, o PT foi entendido como um erro, um começar do zero, uma forma de mitigar a oportunidade histórica do movimento comunista. Dentro do PCB não eram raros os que acusaram o PT de ser uma jogada do general Golbery do Couto e Silva para acabar com o partidão. A tese de criação de um novo partido venceu entre setores populares e de trabalhadores, gerando uma força renovada que disputou a hegemonia no campo da esquerda, consolidada na superação de Brizola por Lula nas eleições presidenciais de 1989.

A militância mais antiga não perdoou e surgiu o ódio que deu forma ao antipetismo de esquerda.

Revolucionários numa frente social democrata

O PT nasceu como um partido que buscava construir o socialismo, orientação que vinha das correntes trotskistas e de intelectuais, mas foi formado por muita gente que não tinha ideia do que é isso. Por isso um partido de trabalhadores, comunistas ou não, revolucionários ou não. O trabalhador do ABC até ouvia falar sobre revolução, mas daí a querer fazer uma há enorme diferença. O PT amalgamou interesses de um brasileiro que, em geral, nunca se mostrou propenso, tampouco consciente de classe em si e para si para se organizar e encampar um movimento revolucionário. As classes subalternas, historicamente massacradas, não se mobilizam com facilidade. O fracasso do levante liderado por Prestes em 1935 e a facilidade com que o golpe triunfou em 1964, decidido por cima, são provas empíricas.

Nos anos 1980, alguns fundadores de orientação revolucionária perceberam que o caminho trilhado pelo PT, como um partido de trabalhadores que receiam a revolução, era a via institucional e deixaram individualmente o partido. O racha mais simbólico, de uma corrente inteira, veio na virada da década com a saída da Convergência Socialista, de orientação morenista, filiada à elaboração política de Nahuel Moreno, resultando na fundação do PSTU.

Os setores revolucionários frustrados se organizaram para disputar sindicatos com a CUT, central de apoio ao PT. Mas era um antipetismo isolado. Quando Lula venceu as eleições de 2002, o caminho da aceitação da conciliação de classes inerente ao estado burguês, traçado no congresso do partido em 1995, foi entendido como traição à classe trabalhadora, aquela mesma que não é afeita à revolução. Com a reforma da previdência proposta por Lula, nasceu o PSOL, um partido de gabinete, nascido no parlamento e sem base social, igualmente antipetista. Com a abertura para criação de diversas centrais sindicais, o PCdoB criou a CTB, resolvendo disputas internas que ensaiavam abalos na aliança com o PT, mas o PSTU criou a CSP-Conlutas, destinada a disputar sindicatos com a CUT, em inúmeros momentos aliando-se à Força Sindical, também criada para disputar sindicatos com a CUT, mas décadas antes por interesses patronais, .

O controle da máquina pública pelo PT deu ao partido uma grande vantagem nessa disputa pela hegemonia dentro da esquerda, o que colocou os “concorrentes” numa posição inerte: como não conseguem superar o PT, odeiam o partido com todas suas forças e, a partir do sentimento figadal, buscam apoio popular, sem sucesso, com um discurso radicalizado e ressentido. Se o PCB do século XX pretendia fazer uma revolução burguesa para depois preparar a revolução proletária, os setores antipetistas da esquerda querem primeiro acabar como PT para ocupar o vácuo e, depois, organizar a classe trabalhadora. Ignoram que o vácuo, no entanto, suga tudo ao seu redor…

Com um objetivo tão vinculado ao fígado, o resultado são as análises distorcidas e teimosas diante de uma realidade demandante de ações que, em algum momento, redundem na defesa de posições ocupadas pelo PT. Logo, torturam-se as evidências para não mudar o objetivo político de destruir o PT, construir uma nova esquerda “verdadeiramente revolucionária” sobre os seus escombros, algo que não foi feito nem com o antigo PCB. Chegou ao ponto de a CSP-Conlutas produzir material para manifestações contra o governo Dilma no ano de 2016 que, em sua forma de ódio, foi apropriado e usado por grupos fascistas acampados à porta da Fiesp, os mesmos que agrediam gratuitamente pessoas com peças de roupas vermelhas.

No PSOL esse antipetismo é mais complexo, pois o partido pretende se tornar a nova referência da esquerda, o novo PT, tomando posições, não destruindo o concorrente. Porém, não possui a base que construiu o Partido dos Trabalhadores permitindo a superação do PCB. Seu antipetismo é muito mais tático do que programático, pois as pautas de ambos os partidos são muito semelhantes, com correntes internas desde o trotskismo até defesas liberais de direitos humanos. Assim se funda na denúncia e em posições sectárias na recusa de alianças com o PT para, com o enfraquecimento do concorrente, se tornar o partido hegemônico da esquerda. As eleições municipais de 2016 mostraram, no entanto, que o PSOL cresceu pouco num campo que se reduziu mais da metade. É também vítima do antipetismo da direita que fez crescer a base eleitoral do PSDB.

Os movimentos populares mais significativos atualmente são de estudantes secundaristas que rejeitam todos os partidos. Ninguém consegue penetrar para ajudá-los a se organizar, até mesmo se proteger dos ataques de grupos fascistas. É um corpo sem cabeça porque a cabeça construída historicamente está em uma profunda crise. O PT e a CUT estão sem capacidade de reação por terem se distanciado da base trabalhadora que os criaram, mas os demais não conseguem absolutamente nada sem um movimento de virtù vindo do PT. Recusam-se a disputar o partido hegemônico por moralismo e emotividade, então, de tão antipetistas, acabam sendo vítimas do ódio que ataca o PT. Exigem uma autocrítica sem realizá-la, pois tudo é culpa do PT.

O antipetismo de esquerda tem motivações diferentes. Se o da direita é gerado pelo medo do pobre, o da esquerda é gerado pela frustração da revolução não realizada. Ambos são uma manifestação de ódio, gerado em caminhos distintos, mas com os mesmos efeitos: o enfraquecimento brutal das classes populares e trabalhadoras.

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