Movimento #elenão pode ter transferido “teto” de Bolsonaro para Haddad

Com base em dados do DataFolha, até dia 28 de setembro de 2018, Fernando Haddad subia consistentemente em intenção de votos e Jair Bolsonaro atingiu um patamar estável “pós-facada”, aparentemente limítrofe, com a mais alta rejeição entre os postulantes à presidência. Dos atos do dia 29 em diante, convocados a partir do sucesso do grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, as tendências se inverteram radicalmente e o então candidato do PSL passou a se beneficiar do aumento intenso da rejeição ao adversário petista.


A campanha presidencial de 2018 foi um evento instável e de dinamismo incomum. A despeito dos inúmeros fatores que determinaram o resultado das eleições, com a extrema-direita chegando ao Executivo federal por voto direto pela primeira vez no Brasil, nos interessamos por entender a dinâmica que fez com que Jair Bolsonaro rompesse um aparente teto de votação, um limite máximo de eleitores que tolerariam discursos anti-civilizacionais (racismo, xenofobia, misoginia, apologia à morte e à tortura, anti-intelectualismo etc.), para uma consagradora vitória.

Obviamente há de se considerar a influência de decisões judiciárias, crescimento de movimentos de extrema-direita em todo o mundo e outros fatores, mas nesse ponto que ora investigamos, ainda em caráter de elaboração de hipóteses, concentra-se especificamente na disputa eleitoral de 2018, especialmente no primeiro turno.

Para essa análise preliminar escolhemos as pesquisas do DataFolha, começando pela publicada no dia 22 de agosto. Foi nesse levantamento que a cédula eleitoral estava definida, as diversas candidaturas retiradas em apoio aos blocos que lideravam campos politicamente relevantes, dependendo apenas da confirmação do nome de Fernando Haddad como cabeça da coligação PT-PCdoB-PROS, diante dos inúmeros e inusuais sinais emitidos pela justiça eleitoral no sentido de impugnação da candidatura Lula. Nesse cenário, em que ainda se entrevistavam eleitores em uma situação com Lula e outra com Haddad, sem o nome do ex-presidente que vinha liderando todas as pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL) assumia a primeira posição e já obtinha um índice de 30% de intenções considerando apenas os votos válidos (sem brancos, nulos e indecisos), seguido por Marina Silva (Rede, 24%), Ciro Gomes (PDT, 14%), Geraldo Alckmin (PSDB, 12%) e Fernando Haddad (PT, 5%).

Gráfico produzido pelo autor com dados das pesquisas DataFolha publicadas nos dias 22/8; 10, 14, 20 e 28/9; 2, 4 e 6/10; comparados com o resultado das urnas apuradas em 7/10.

Novo e consistente cenário

Uma série de eventos ocorreu nas campanhas entre a pesquisa de 22/8 e 10/9. No dia 6/9, Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG) e teve aumento de intenções de votos, mas com pouco impacto nos votos válidos, subiu de 30% para 31%, dentro das margens de erro do DataFolha. Naquela mesma semana o PT anunciou um ato em Curitiba, em frente à sede da Polícia Federal onde lula foi encarcerado, para anunciar a candidatura de Haddad, sendo que na pesquisa do dia 10/9 somente o ex-prefeito de São Paulo foi apresentado como nome petista, dando um aumento de 5% para 12%.

Esses fatos foram os mais potenciais para realizar deslocamento de votos. A subida de Haddad e a estabilidade de Bolsonaro em termos de votos válidos não surpreenderam, sendo a movimentação mais sensível nos outros três candidatos: Marina Silva teve acentuada queda de de 24% para 14%, com Ciro Gomes (14% para 16%) e Geraldo Alckmin (12% para 14%) oscilando na margem de erro. As linhas dos candidatos mostram que o grande fato definidor desse cenário, com a cédula fechada, foi a impugnação da candidatura de Lula. Haddad, valendo-se da “transferência de votos”, com a intensa vinculação de sua imagem à do ex-presidente, em uma campanha pautada por temas econômicos em retórica de proteção social, subiu para 16% (14/9), 20% (20/9) e 26% (28/9), enquanto os principais candidatos de viés abertamente neoliberal (Marina Silva e Geraldo Alckmin) caíam e Ciro Gomes, com discurso intermediário, oscilou para baixo.

A estabilidade de Jair Bolsonaro também se deu em seu tom moralista na campanha. Com pouca exposição de TV e afastado de atos públicos após a facada em Juiz de Fora, valeu-se de uma retórica superficial em termos de valores (patriotismo, família, cristandade, ideologia etc.), de modo que aparentava haver um teto de votos conservadores/anti-civilizacionais a inviabilizar uma vitória em tais termos.

Ademais, a alta rejeição, principalmente entre os mais pobres e as mulheres, parecia configurar uma barreira intransponível ao candidato do PSL. A subida de Haddad sem Lula já era esperada, sendo que a sua rejeição crescia na medida em que se identificava com o ex-presidente, confirmando que havia sim a transferência tanto de votos quanto de não votos. A rejeição a Marina Silva oscila um pouco mais para cima, enquanto Ciro e Alckmin se mantiveram estáveis. A proteção social enfatizada pelo petista aparentemente vencera o discurso neoliberal, o qual também fazia parte do programa de Bolsonaro, porém obscurecido pela pauta em torno de defesa de valores. A hipótese estabelecida por nós nesse momento – e ainda carente de verificação – indica que, se nada muito diferente ocorresse para que o moralismo superasse as necessidades básicas nas intenções de voto, a tendência geral seria um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad (como de fato ocorreu), com provável vitória petista.


Gráfico produzido pelo autor com dados das pesquisas DataFolha publicadas nos dias 22/8; 10, 14, 20 e 28/9; 2, 4 e 6/10.

Novo fato político e novo cenário

Em uma eleição profundamente disputada nos meios digitais, uma série de eventos ganharam projeção entre o fechamento da cédula eleitoral e a votação em primeiro turno, no dia 7/10, intercalando-se com os eventos “offline“, sendo os principais deles as manifestações de 29 de setembro contra o candidato Jair Bolsonaro e a difusão em massa de notícias falsas contra o candidato Fernando Haddad, intensificadas no mesmo final de semana, como mostra o gráfico abaixo:

Como vimos anteriormente, o cenário desde 10/9 até a pesquisa do dia 28/9, com base em entrevistas feitas naquela última semana de setembro, apresentava tendências gerais favoráveis ao candidato Fernando Haddad e à sua campanha baseada no discurso econômico de proteção social. No dia 13 de setembro, exatamente uma semana após a facada em Juiz de Fora, um grupo fechado, criado no Facebook por militantes feministas no dia 30 de agosto com o nome “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, passa a receber adesão repentina em massa, em torno de 100 mil novas integrantes por hora, passando para mais de 2 milhões de usuárias.

O grupo foi invadido no dia 14/9 por apoiadores de Jair Bolsonaro, sendo posteriormente restituído às proprietárias pela empresa Facebook. Desde então, a partir desse grupo fechado, foram criados outros grupos congêneres e se convocaram atos críticos ao candidato do PSL para o dia 29 de setembro, um sábado, em diversas cidades, mobilizando militâncias progressistas, movimentos sociais, centrais sindicais e diversos setores defensores de direitos humanos. Os eventos, surgidos no âmbito de redes digitais, levaram a reboque os setores políticos organizados na expectativa de ferir as intenções de voto em Jair Bolsonaro. Contudo, todo o trabalho foi realizado em termos de valores morais, o campo preferido do candidato do PSL. A própria campanha de Fernando Haddad naquela semana passa a dar maior ênfase às pautas identitárias e de defesa dos direitos humanos.

No dia 29, as imagens captadas a partir da hashtag #elenão começaram a ser distribuídas via WhatsApp em todo o Brasil com ênfase em mulheres nuas, homossexuais se beijando e jovens fumando maconha durante os atos de rua. Ao final do dia de manifestações, havia a sensação de que o candidato do PSL estava liquidado, mas o efeito de fato foi ter tirado o debate do campo de proteção social versus estado mínimo para imoralidade de esquerda versus valores da família. No dia 30/9, as lideranças evangélicas que apoiavam Geraldo Alckmin mudaram de barco para a candidatura de Jair Bolsonaro, sendo que os templos, espalhados por todo o Brasil, em bairros de todas as classes, se tornaram comitês de campanha do PSL. O campo para envio de notícias falsas anti-Haddad estava ricamente fertilizado. Nesse momento, com a inversão do espantalho do “fascista Bolsonaro” para o “promíscuo Haddad”, as tendências mudaram radicalmente: Bolsonaro manteve a rejeição, mas subiu intensamente nas intenções de voto, Marina e Alckmin despencaram, Haddad caiu e depois recuperou, mas a rejeição subiu meteoricamente, com Ciro estável.

Possibilidades analíticas

Não se trata, absolutamente, de “responsabilizar” um movimento antifascista pelo resultado eleitoral. No entanto, os seus efeitos objetivos e usos pelas duas campanhas denotam, pelo menos em fase de construção de hipótese, que o deslocamento do debate favoreceu Bolsonaro, cuja equipe, a despeito do caráter legal ou ilegal das técnicas, soube usar melhor do que o seu antagonista. Antes do dia 29 de setembro, aparentemente havia um teto eleitoral que obstruía a subida das intenções de voto em Bolsonaro, mas com o deslocamento do debate da pauta econômica para o campo da moral, ele foi transferido para Haddad. Embora a rejeição a Bolsonaro tenha sido estável, ela foi rompida entre mulheres e pobres, sob influência das igrejas evangélicas. Como explicando no início, trata-se da construção de uma hipótese que ainda está sendo feita (elaboração de metodologias e verificação do que já se é possível checar) em termos de:

1) Análise das técnicas de atuação nas redes sociais, incluindo origem dos dados usados na difusão em massa de notícias falsas anti-Haddad (motivo pelo qual o roubo de dados de 29 milhões de usuários do Facebook se torna um tema de necessária investigação, pois algo semelhante ocorreu na campanha de Donald Trump, nos Estados Unidos).

2) Formas e motivos pelos quais o grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” teve um crescimento tão acentuado em tão pouco tempo, mesmo existindo desde o dia 30/8. Pela velocidade com que ocorreu, é possível ter havido impulsionamento intencional independente das proprietárias do grupo.

3) Construção de um modelo estatístico mais detalhado, com a inclusão de dados adicionais, incluindo de outros institutos de pesquisa, especialmente no que se faça possível verificar a existência de tetos de votação e sua possível transferência de Bolsonaro para Haddad.

4) Técnica discursiva da campanha vencedora de modo a captar votos pela difamação com informações flagrante e absurdamente falsas, cuja credulidade demanda mais atributos afetivos dos interlocutores do que validade argumentativa.

5) Possíveis relações com elementos estrangeiros.

6) A efetiva influência das igrejas evangélicas, bem como suas imbricações dentro do bloco histórico que elegeu Bolsonaro, sobre a votação no presidente eleito e na rejeição a Fernando Haddad.